domingo, 10 de março de 2019

A FRAÇÃO INSPIRADA DE OXIGÊNIO (FiO2) PARA TITULAR A SATURAÇÃO ARTERIAL DE OXIGÊNIO (SaO2). 
EXISTE UM VALOR CRÍTICO PARA DEFINIR TOXICIDADE?.

*Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico Intensivista. Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos.
*Dr. Jorge Yoshiyuki Morita. Médico da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos.




I. INTRODUÇÃO

Quando nos encontramos diante de um paciente grave ou crítico, iniciamos uma série de medidas que em última instância visam fazer com que as células do organismo desse paciente possam, em tempo hábil, extrair o oxigênio circulante e assim, manter seu metabolismo aeróbico gerando a quantidade necessária de energia (ATP) para manter suas funções vitais.

Nesse cenário, precisa-se não apenas de uma boa oxigenação da hemoglobina a nível alveolar (hematose) e de levar o oxigênio até as células (transporte de O2), mas fazer com que esse oxigênio entre nas células (gradiente de O2) e ainda que a célula seja capaz de realizar o metabolismo que culmine com a produção de ATP. Portanto, oxigenação celular depende diretamente de que os mecanismos de hematose, transporte e gradiente de oxigênio sejam realizados adequadamente.
Evidentemente, necessitamos de ferramentas práticas e rápidas, de preferência à beira leito, que nos permitam saber se as células estão sendo adequadamente oxigenadas, isto é, sem risco de hipóxia ou de hiperóxia.

Fração inspirada de oxigênio (FiO2), saturação arterial de oxigênio (SaO2) geralmente aferida pela oximetria de pulso de forma contínua e pela gasometria arterial de forma intermitente e, a pressão arterial parcial de oxigênio (PaO2) aferida pela gasometria arterial, são marcadores de oxigenação usados corriqueiramente no dia-dia, sem no entanto, analisarmos adequadamente sua correlação e interação para alcançar uma adequada interpretação.

Inexiste uma fórmula ou equação que correlacione as três variáveis e permita estabelecer alguma relação entre elas ou deduzir o valor de uma em função da(s) outra(s). Assim, não resulta possível deduzir com precisão o valor da Pa02 (variável determinante do gradiente de O2 a nível celular) sabendo apenas o valor da Fi02 e/ou a Sa02, mais ainda em paciente graves ou críticos cujos mecanismos de troca e/ou transporte de gases podem estar alterados.

A Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica (VM) recomendam dentre os ajustes iniciais dos parâmetros do ventilador[1]:

 “utilizar a FIO2 necessária para manter a saturação arterial de oxigênio entre 93 a 97%”.

Do teor dessa recomendação poder-se-ia interpretar que existe autorização para usar valores de FiO2 “a vontade” até o nível máximo de 100% inclusive, visando atingir e manter esse alvo almejado de Sa02.

Criou-se na prática, uma situação de “titulação indiscriminada da FiO2 pela meta de SaO2”, na qual a angustia de observar no monitor “uma queda na SaO2 abaixo da meta almejada” induz a aumentar automaticamente a FiO2, chegando inclusive até valores de 100% num curto período de tempo.

Referente à FiO2, sabe-se já há muito tempo que, um ajuste inadequado da FiO2 pode causar hipóxia ou hiperóxia e, consequentemente, efeitos nocivos ao organismo[2] [3] [4]. Algumas das consequências da hipóxia tecidual são alterações celulares e aumento do metabolismo anaeróbico[5]. Os efeitos tóxicos do oxigênio quando administrado em altas doses ou por um período prolongado de tempo podem causar lesões pulmonares e sistêmicas. No caso da hiperóxia, o principal mecanismo envolvido nessas lesões é o estresse oxidativo. Esse pode provocar o aparecimento de processos degenerativos das biomoléculas orgânicas e consequentemente, insuficiência e morte celular. Na inflamação pulmonar provocada pela hiperóxia pode ocorrer ativação e recrutamento tanto de neutrófilos quanto de macrófagos alveolares, resultando em formação de membrana hialina, edema, hiperplasia e proliferação de células epiteliais tipo II, destruição de células inflamatórias tipo I, fibrose intersticial e remodelamento vascular pulmonar[6] [7] [8] [9] [10] [11].

Com relação à SaO2, aferida pela oximetria de pulso, o nível de oxigênio medido por um oxímetro de pulso é razoavelmente acurado. A maioria dos oxímetros dão uma leitura 2% acima ou 2% abaixo da saturação que poderia ser obtida pela gasometria arterial. Por exemplo, se a saturação de oxigênio for de 92% no oxímetro de pulso, ela pode ser de fato qualquer valor entre 90 e 94%. Entretanto, a leitura do oxímetro pode ser menos acurada se o paciente usar esmaltes, unhas postiças, tiver as mãos frias, ou tiver a circulação deficiente por efeito de drogas que provoquem vasoconstrição periférica. O oxímetro de pulso pode também ser menos acurado em caso de níveis muito baixos de saturação de oxigênio (abaixo de 80%) ou de pele muito escura[12]. Entretanto, mesmo que tais valores de SaO2 aferidos pela oximetria de pulso sejam fidedignos (afastadas as causas de erro de aferição pela oximetria de pulso), ou decorram da aferição pela gasometria arterial, essa “titulação” não poderia ser feita sem antes investigar e tratar as causas da  desaturação, adotar antes outras medidas dentro da estratégia ventilatória e principalmente, sem um adequado controle e monitorização dos efeitos deletérios do uso do oxigênio em altas concentrações, isto é, da hiperóxia.

II. O RISCO DA HIPERÓXIA

Cada vez mais surgem evidências acerca da toxicidade do oxigênio quando fornecido em níveis elevados. Desta forma, o uso de altos níveis de FiO2 torna-se de risco, diante da possibilidade de ocorrência de Lesão Pulmonar Induzida pelo Oxigênio (LPIO) ou como também tem sido denominada, Lesão Pulmonar Aguda Hiperóxica (Hyperoxic Acute Lung Injury – HALI)[13].

Hiperoxia, ainda não alcançou uma definição precisa, mas elevações significativas da pressão arterial parcial de oxigênio (PaO2) ocorrem quando a fração de oxigênio inspirado (FiO2) é maior do que 21%. Eventos adversos podem resultar do aumento da PO2 nos alvéolos, sangue ou a nível celular. A hiperóxia parece produzir lesões celulares através do aumento da produção de radicais livres de oxigênio (free radicals), como o anion superóxido, o radical hidroxilo e o peróxido de hidrogênio[14] [15]. Quando a produção destes radicais aumenta e/ou as defesas antioxidantes da célula depletam, eles podem reagir e prejudicar a função das macromoléculas intracelulares essenciais, resultando em morte celular[16]. No sistema respiratório, altas concentrações de O2 podem aumentar a susceptibilidade à atelectasia de absorção e danificar a mucosa respiratória levando a infecção secundária como consequência de alteração na depuração mucociliar e a capacidade bactericida das células imunes[17] [18]. Os estudos em geral, falam que os perigos da toxicidade do oxigênio são subestimados, e que o impacto negativo da hiperóxia é significativo, mesmo quando comparado aos riscos de hipóxia seguindo estratégias conservadoras de oxigenação.[19]

Observe-se, no Guideline do British Thoracic Society Emergency Oxygen Guideline Development Group, os principais efeitos da hiperoxia são: uma ventilação/perfusão agravada, atelectasias de absorção, vasoconstrição coronariana e cerebral, redução do débito cardíaco, danos causados pelos radicais livres de oxigênio e resistência vascular sistêmica aumentada[20].


Desta forma, altas frações de oxigênio inspirado (FiO2) estão associadas a vários efeitos na troca de gases, incluindo diminuição dos volumes pulmonares e hipoxemia devido à atelectasia absortiva (pela substituição do nitrogênio pelo O2 que ao ser absorvido provoca atelectasia), acentuação/produção de hipercapnia (principalmente em pacientes com DPOC retentores de CO2) e danos nas vias aéreas (traqueobronquite) e parênquima pulmonar (atelectasias e dano alveolar difuso semelhante ao SARA). O termo "toxicidade do oxigênio" geralmente é reservado para a última dessas consequências, ou seja, danos traqueobrônquicos e alveolares.

III. A RELAÇÃO PaO2 E SaO2

O conteúdo arterial de oxigênio (CaO2), corresponde à soma do O2 transportado pela Hb (Hb x SaO2 x 1,34) + O2 dissolvido no plasma (0,003 x PaO2), dependendo, portanto, da SaO2 e da PaO2.



Entretanto, apenas 2% desse conteúdo corresponde ao O2 dissolvido que é quem determina a PaO2, sendo que 98% viaja ligado à Hb. Ainda, o O2 entra na célula (objetivo principal da oxigenação) em razão da existência de um gradiente de pressão de O2 entre o capilar periférico e a célula. Os termos hipóxia e hipoxemia não são sinônimos. Hipoxemia é definida em regra como uma diminuição da PaO2 no sangue, enquanto a hipóxia é definida pelo nível reduzido de oxigenação dentro da célula. Pode ser devido à entrega defeituosa ou à utilização defeituosa do oxigênio pelos tecidos. Hipoxemia e hipóxia nem sempre coexistem. Os pacientes podem desenvolver hipoxemia sem hipóxia se houver um aumento compensatório no nível de hemoglobina e no débito cardíaco (DC). Da mesma forma, pode haver hipóxia sem hipoxemia, como ocorre na intoxicação por cianeto, em que as células são incapazes de utilizar o oxigênio, apesar de ter níveis normais de oxigênio no sangue e nos tecidos[21].

De acordo com o Tratado de Fisiologia de Guyton cerca de 98% do sangue que entra no átrio esquerdo, proveniente dos pulmões, acabou de passar pelos capilares alveolares e foi oxigenado até uma PaO2 em torno de 104 mmHg. Outros 2% do sangue vêm da aorta, pela circulação brônquica que supre basicamente os tecidos profundos dos pulmões e não é exposta ao ar pulmonar. Esse fluxo de sangue é denominado “fluxo da derivação”, significando que o sangue é desviado para fora das áreas de trocas gasosas. Ao deixar os pulmões, a PaO2 do sangue da derivação fica em torno da PO2 do sangue venoso sistêmico normal, aproximadamente, 40 mmHg. Quando esse sangue se combina nas veias pulmonares, com o sangue oxigenado dos capilares alveolares, essa chamada “mistura venosa de sangue” faz com que a PO2 do sangue que chega ao coração esquerdo e é bombeado para a aorta (PaO2) diminua para cerca de 95 mmHg. Na medida em que o sangue que deixa os pulmões e entra nas artérias sistêmicas tem em geral a PaO2 em torno de 95 mmHg, é possível ver, a partir da curva de dissociação, que a saturação usual de oxigênio do sangue arterial sistêmico é em média de 97%. Por outro lado, no sangue venoso normal que retorna dos tecidos periféricos, a PvO2 é cerca de 40 mmHg e a saturação de hemoglobina é em média de 75%. Quando o sangue arterial chega aos tecidos periféricos, a PaO2 nos capilares periféricos ainda é 95 mmHg (PO2 capilar). Contudo, no líquido intersticial que banha as células teciduais, é em média de apenas 40 mmHg (PO2 intersticial). Assim, esta enorme diferença da pressão inicial que faz com que o oxigênio se difunda rapidamente do sangue capilar para o interstício tão rapidamente que a PaO2 capilar diminua quase se igualando à pressão de 40 mmHg do interstício. Portanto, a PaO2 do sangue que deixa os capilares dos tecidos e entra nas veias sistêmicas é também de aproximadamente, 40 mmHg. A PO2 dentro das células dos tecidos periféricos (PO2 intracelular), permanece ainda menor do que a PaO2 nos capilares periféricos. Além disso, em muitos casos existe a distância física considerável entre os capilares e as células. Portanto, a PO2 intracelular normalmente varia de tão baixa quanto 5 mmHg a tão alta quanto 40 mmHg, tendo, em média (por medida direta em animais inferiores), 23 mmHg. Na medida em que apenas 1 a 3 mmHg de pressão de oxigênio são normalmente necessários para o suporte total dos processos químicos que utilizam oxigênio na célula, é possível ver que mesmo essa baixa PO2 intracelular de 23 mmHg seja mais do que adequada e proporcione grande fator de segurança. Nas condições basais, os tecidos necessitam de cerca de 5 mililitros de oxigênio de cada 100 mililitros do sangue que passa pelos capilares teciduais. Para que os 5 mililitros usuais de oxigênio sejam liberados por 100 mililitros de fluxo sanguíneo, a PaO2 deve cair para cerca de 40 mmHg. Isso se dá normalmente porque o sangue que chega no tecido tem uma PO2 de 95mmHg e difunde para o interstício por gradiente de pressão. Portanto, a PO2 intersticial normalmente não pode aumentar acima desse nível de 40 mmHg porque, se o fizer, a PO2 capilar não cairá para 40mmHg, permanecendo mais elevada, aumentando a afinidade do O2 pela hemoglobina e assim a quantidade de oxigênio necessitada pelos tecidos não seria liberada pela hemoglobina. Dessa forma, a hemoglobina normalmente estabelece o limite superior da pressão do oxigênio nos tecidos, em torno de 40 mmHg. Em condições normais, quando a PaO2 é alta, como nos capilares pulmonares, o oxigênio se liga à hemoglobina, mas quando a PaO2 é baixa, como nos capilares teciduais, o oxigênio é liberado da hemoglobina. Essa é a base de quase todo transporte de oxigênio dos pulmões para os tecidos. Isso expressa-se no conceito de Curva de Dissociação da Hb que demonstra aumento progressivo da porcentagem de hemoglobina ligada ao oxigênio, à medida que a PaO2 do sangue aumenta, o que é denominado percentual de saturação de hemoglobina. Por outro lado, a SaO2 da Hb depende do gradiente alvéolo-capilar de O2 a nível do capilar pulmonar. O valor reflete o quanto a Hb se carregou de O2 a nível do capilar pulmonar.

Existe ainda uma relação direta entre a PaO2 e o grau de SaO2 a nível do capilar pulmonar.

A nível alvéolo-capilar, a PaO2 depende do gradiente alvéolo-capilar de O2 [D(A-a)O2], sendo um dos fatores determinantes desse gradiente, a PAO2 (pressão alveolar de O2) influenciada diretamente pela FiO2.


Já a nível tecidual, ocorre o fenômeno inverso e a PaO2 deve cair (em razão da passagem do O2 para os tecidos) para facilitar o 02 da Hb se liberar e dissolver no plasma restaurando a PaO2 que novamente faça entrar o O2 no tecido. Ainda, outros fatores podem influenciar no grau de dissociação da hemoglobina desviando-a para esquerda (maior afinidade pelo O2 e menor liberação) ou para direita (menor afinidade e maior liberação).  Portanto, pode se concluir que não se necessita de elevadas PaO2 nos capilares periféricos para garantir um gradiente de pressão necessário para a entrada de O2 na célula. Bastariam pressões de 60 a 65 mmHg (já acima de 40mmHg) para permitir uma razoável oxigenação tissular.

                                                    Fonte: Tratado de Fisiologia de Guyton

Observa-se pela curva de dissociação que uma PaO2 de 60 mmHg mantém uma saturação de hemoglobina em 90%, 7% apenas abaixo do normal (97%). A partir da curva de dissociação de oxigênio-hemoglobina podemos identificar que o nível de PaO2 determinante da Insuficiência Respiratória Aguda tipo I (PaO2 < 60mmHg), corresponde a uma SaO2 < 90%. Também é possível interpretar que a partir de um certo valor de PaO2, a SaO2 irá sempre se manter no máximo valor possível, 100%. Logo, em uma curva de dissociação de oxigênio-hemoglobina fisiológica, com cerca de 120 mmHg de PaO2, obteremos uma SaO2 de 100%, e assim será com 300 ou 500 mmHg de PaO2 e outros valores acima de 120 mmHg. Assim, uma meta de manter o paciente com SaO2 de 100%, sem levar em consideração os níveis de PaO2, acarreta em maiores riscos de exposição a níveis elevados e tóxicos de oxigênio.

Quando a PO2 é alta, como nos capilares pulmonares, o O2 se liga à hemoglobina, mas quando a PO2 é baixa, como nos capilares teciduais, o O2 é liberado da hemoglobina. Essa é a base de quase todo transporte de O2 dos pulmões para os tecidos.

Ainda, a hemoglobina apresenta, um efeito tampão de oxigênio tecidual, sendo responsável por estabilizar a pressão do oxigênio nos tecidos. Isso é explicado, pois a hemoglobina estabelece um limite superior na pressão de oxigênio nos tecidos em torno de 40 mmHg. Qualquer queda nessa pressão estimula a liberação de oxigênio pela hemoglobina. Isto pode ser atingido por causa da inclinação abrupta da curva de dissociação para direita e do aumento no fluxo de sangue tecidual causado pela queda da PaO2; ou seja, uma ligeira queda na pressão parcial de oxigênio faz com que grandes quantidades extras de O2 sejam liberadas da hemoglobina[22].

Na curva de dissociação padrão da Hb (sem desvios), observa-se a denominada P50, que é definida como a PO2 necessária para saturar 50% de saturação da Hb, ou seja, metade da sua capacidade máxima, correspondendo a um valor normal de 26 a 28mmHg. A curva de dissociação é desviada fisiológica (por exemplo durante o exercício) ou patologicamente (nas doenças) para a direita por aumento na concentração de íon hidrogênio (acidose), aumento de 2,3-difosfoglicerato (DPG) do eritrócito, elevação da temperatura (T) e aumento da pressão parcial de dióxido de carbono (PCO2). Estes fatores diminuem a afinidade do O2 pela Hb o que provoca sua maior liberação. Ao contrário, a diminuição dos níveis de hidrogênio (alcalose), diminuição do 2,3 DPG, diminuição da temperatura e da PCO2 desviam a curva para a esquerda, induzindo maior afinidade do O2 pela Hb e sua menor liberação.


Figura:  https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/multimedia/figure/pul_oxyhemoglobin_dissociation_curve_pt

Assim, essa curva pode sofrer deslocamentos, para a direita e para a esquerda, por fatores que modificam a afinidade da hemoglobina com o oxigênio, fazendo com que seja necessário valores maiores ou menores (de acordo com o deslocamento) de PaO2 para obtenção de uma mesma SaO2 quando comparada a curva ao valor da curva fisiológica. Além da variação do pH sanguíneo, alterações de temperatura, concentração sanguínea de CO2 e concentração de 2,3 difosfoglicerato também são fatores que modificam a afinidade da hemoglobina com o oxigênio.

O desvio da curva de dissociação de oxigênio-hemoglobina para a direita, em resposta a aumento do CO2 e dos íons hidrogênio no sangue, tem efeito significativo de intensificar a liberação de O2 do sangue para os tecidos e intensificar a oxigenação do sangue nos pulmões. É o efeito Bohr, que pode ser assim explicado: enquanto o sangue atravessa os tecidos, o CO2 se difunde das células para o sangue. Essa difusão aumenta a PCO2 do sangue que, por sua vez, aumenta a concentração de H2CO3 (ácido carbônico) e dos íons hidrogênio no sangue. Esse efeito desloca a curva de dissociação de oxigênio-hemoglobina para a direita e para baixo forçando a liberação do O2 pela hemoglobina e, portanto, liberando quantidade maior de O2 para os tecidos. Efeitos exatamente opostos ocorrem nos pulmões, onde o CO2 se difunde do sangue para os alvéolos. Essa difusão reduz a PCO2 do sangue e diminui a concentração dos íons hidrogênio, deslocando a curva de dissociação de oxigênio-hemoglobina para a esquerda e para cima. Portanto, a quantidade de O2 que se liga à hemoglobina em qualquer PO2 alveolar fica consideravelmente maior, permitindo assim maior transporte de O2 para os tecidos. Já o efeito Haldane resulta do simples fato de que a combinação do O2 com hemoglobina, nos pulmões, faz com que a hemoglobina passe a atuar como ácido mais forte. Assim se desloca o CO2 do sangue para os alvéolos de duas maneiras. Em primeiro lugar, quanto mais ácida a hemoglobina, menos ela tende a se combinar com o CO2, para formar carbaminoemoglobina, deslocando, assim, grande parte do CO2 presente na forma carbamino do sangue. Em segundo lugar, a maior acidez da hemoglobina também faz com que ela libere muitos íons hidrogênio que se ligam aos íons bicarbonato para formar ácido carbônico, que, por sua vez, o se dissocia em água e CO2, e o CO2 é liberado do sangue para os alvéolos e, finalmente, para o ar.

A partir da curva de dissociação do O2 padrão podemos observar que para obter uma SaO2 de 97% precisar-se-ia de uma PaO2 de 100mmHg e para uma SaO2 de 89% uma PaO2 de 60mmHg. Assim, a diferença entre PaO2 normal (100mmHg) e uma claramente anormal (60mmHg) é de 40mmHg, mas a correspondente diferença de SaO2 é de apenas 8,5% (97,5-89%). Portanto, devido à forma da curva de dissociação do O2, a PaO2 é um índice mais sensível que a SaO2 na avaliação de hipoxemia de grau leve. Técnica de medida da PaO2 pela gasometria arterial tem sido consideradas sempre como mais precisa, pelo do fato de também medir a PaCO2 e o pH que são fatores que podem desviar a curva de saturação. A SaO2 pode também ser estimada a partir da PaO2 assumindo uma curva de dissociação padrão. Isto é mais preciso que o contrário, ou seja, calcular a PaO2 a partir da SaO2, porque, neste caso, a PaCO2 e o pH não são considerados, sabendo que os mesmos podem desviar a curva de dissociação[23].



IV. ESTABELECENDO NIVEIS CRÍTICOS DE FiO2 E SaO2

Seria de todo relevante estabelecer um ponto crítico ou cut-off de nível de Fi02 e/ou de tempo de exposição a esse nível, a partir do qual o risco de hiperóxia e toxicidade pelo oxigênio torne-se significativo. Da mesma forma, atingir valores de Sa02 de 100% poderá estar expressando valores muito elevados de PaO2 a nível do capilar celular, o que contrariamente ao que se poderia pensar, estaria se favorecendo dano celular por hiperóxia.

A exposição prolongada a altos níveis de FIO2 (FIO2 ≥ 90%) causa uniformemente lesão pulmonar aguda hiperóxica grave (HALI) e, sem uma redução da FIO2, geralmente é fatal. A gravidade da HALI é diretamente proporcional à PaO2 (particularmente acima de 450 mm Hg, ou FIO2 de 0,6) e à duração da exposição. Clinicamente, o risco de HALI provavelmente ocorre quando o FIO2 excede 0,7 e pode tornar-se problemático quando FIO2 excede 0,8 por um longo período de tempo[24].

Mesmo o uso de altos níveis de oxigênio (Fi02 de 0.8) recomendados na prevenção da infecção de ferida operatória é controverso.[25] [26] [27].

O grande dilema e preocupação centra-se nos pacientes com SARA, nos quais não poucas vezes necessitamos de usar elevados níveis de Fi02 para melhorar a oxigenação com o risco de muitas vezes acrescentar a lesão induzida pelo oxigênio (HALI).

Para reduzir os riscos potenciais da hiperóxia, uma meta de Sa02 mais baixa pode ser aceitável em pacientes criticamente doentes. Um SaO2 baixa tolerável também denominada de HIPOXEMIA PERMISSIVA/ESTRATÉGIA DE OXIGENAÇÃO CONSERVADORA. Geralmente, a estratégia de hipoxemia permissiva visa uma SaO2 entre aproximadamente 85% e 95%, que sempre se procura nos pacientes com SARA e prematuros[28] [29].

Recentemente, Panwar et al. publicaram um estudo internacional multicêntrico aleatorizado, controlado, não cego, no qual compararam uma estratégia conservadora de oxigenação (alvo de SaO2 de 88-92%) com uma estratégia liberal tradicional (alvo de SaO2 de 96%).Não houve diferença significa entre grupos em qualquer medida de disfunção orgânica ou mortalidade de 90 dias da UTI. Os autores concluíram que uma estratégia conservadora de oxigenação é uma alternativa viável à habitual estratégia de oxigenação liberal, sendo eficaz em reduzir a exposição à hiperoxia[30]. Entretanto, também recentemente, um estudo do Reino Unido e da Australia, o Benefits of Oxygen Saturation Targeting (BOOST) II, mostrou que um alvo de saturação de oxigênio de 85% a 89%, em vez de 91% para 95%, podem aumentar o risco de morte ou deficiência aos 2 anos idade corrigida em lactentes nascidos antes das 28 semanas de idade. Concluem que o potencial dano da hipóxia deve ser cuidadosamente avaliado com base nas condições patológicas e fisiológicas, e deve ser lembrado que o benefício da hipóxia permissiva é derivado da redução da lesão hiperoxica[31]. Estas divergências e a necessidade de ainda estudar o real impacto da estratégia conservadora tem sido colocada em recentes publicações. Nessas publicações refere-se ainda que o uso de marcadores de perfusão tecidual, principalmente o uso de lactato poderiam ajudar a saber se existiria ou não evidência de hipoperfusão tissular[32] [33]. Certamente em situações de choque e má perfusão periférica o valor da oximetria de pulso poderia apresentar viés de aferição.

Pelo UpToDate, na atualidade não existe um valor de fração de oxigênio inspirado (FiO2) que defina um limite superior seguro para a prevenção da toxicidade do oxigênio, embora a experiência clínica sugira que, na ausência de agentes sensibilizadores como a bleomicina, é improvável que FiO2 <60% induza toxicidade pelo oxigênio. A importância relativa da duração e da magnitude da exposição a altos níveis de Fi02 também não foi claramente definida, embora seja provável que a área sob a curva FiO2 versus tempo seja a melhor variável preditiva. Ajustar a FiO2 para o menor valor possível é um bom norte para todos os pacientes, em particular aqueles que provavelmente correm o risco de lesão pulmonar induzida por hiperoxia por causa de alto valor de FiO2 ou duração prolongada de oxigenoterapiaEm termos práticos, o oxigênio deve ser administrado para atingir uma PaO2 de 60 a 65 mmHg (saturação arterial de oxigênio [SaO2] aproximadamente 90 por cento) [34].


V. CONCLUSÕES

Finalmente podemos concluir que:

1. A recomendação da Diretriz Brasileira de Ventilação Mecânica quanto ao uso da FiO2 buscando garantir uma SaO2 de 93 a 97% deve levar em consideração a toxicidade produzida por altos níveis de FiO2.

2. Apesar de não haver evidência forte acerca de um nível crítico de FiO2 e/ou de tempo mínimo para toxicidade pelo oxigênio, pareceria razoável acender o alerta para essa toxicidade quando atingidos valores de FiO2 60%.

3. Até valores de FiO2 < 60% a monitorização da oxigenação poderia ser guiada pelos alvos de SaO2 preconizados nas diretrizes, cuidando de assegurar uma correta aferição da SaO2 pela oximetria de pulso.

4. Havendo necessidade de usar valores de FiO2 60% dar preferência ao uso da PaO2 pela gasometria arterial procurando alvos mínimos de 60 a 65mmHg e se auxiliando de marcadores e perfusão tecidual (exemplo, lactato arterial).

5. A necessidade de altos níveis de FiO2 em pacientes com SARA moderada ou grave deve ser manejada com estratégias convencionais e de resgate preconizadas pela literatura cientifica em vigor.

6. O uso de altos níveis de oxigênio (FiO2 de 0.8) recomendados na prevenção da infecção de ferida operatória ainda é controverso.




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domingo, 10 de fevereiro de 2019

EDEMA PULMONAR DE RE-EXPANSÃO (E.P.R.E.) E O ULTRASSOM PULMONAR COMO PARTE DA PROPEDÊUTICA.

Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico Intensivista. Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos.


O Jornal americano CHEST deste mês de fevereiro traz um caso muito interessante sobre uma patologia pouco frequente: O EDEMA PULMONAR DE RE-EXPASÃO (E.P.R.E.) Reexpansion pulmonary edema (REPE). A propósito do caso, faz uma rápida revisão sobre o tema dando especial ênfase ao uso da ultrassonografia pulmonar a beira leito (ultrassom point-off-care - POCUS) no diagnóstico e monitorização de sua resolução como alternativa eficaz a exames convencionas como radiografia e tomografia de tórax[ARTIGO CHEST].

A propósito desse caso e salientando que as imagens e o caso pertencem ao artigo acima citado, faremos esta revisão e discussão fazendo algumas adaptações no contexto descrito.

CASO RELATADO:

Paciente de sexo masculino, de 46 anos de idade apresentou-se no PS referindo dor torácica à direita de forte intensidade e de início súbito, tosse seca e dispneia, sem relato de febre. História pessoal pregressa de tabagismo desde os 15 anos. Sem relatos de medicamentos de uso continuo.

Na admissão no PS, o paciente estava com dor torácica intensa à direita. No exame clínico inicial apresentava na ausculta respiratória MV abolido no HTD. Sinais vitais: PA =140/80 mmHg; FC= 75 bpm; FR=20 rpm; TAX= 37ºC; e Sa02=94% em ar ambiente. Exames laboratoriais sem achados relevantes.

Radiografia de tórax mostrou colapso do pulmão direito resultante de pneumotórax espontâneo, já que não havia relato de trauma torácico associado (figura 1).

Figura 1. Rx de tórax na admissão

Feita drenagem de tórax com selo d´água no quarto espaço intercostal e linha axilar média. Após drenagem o paciente começou a tossir e a apresentar tremores. Rx de tórax controle após a drenagem, mostrou a expansão do pulmão, revelando, no entanto, uma área de hipodensidade no 1/3 médio e basal do pulmão direito (figura 2):

Figura 2. Rx de tórax controle, pós drenagem

Levantada hipótese de pneumonia comunitária (PAC) foi escalonado empiricamente antibiótico a base de levofloxacina 750 mg 12/12h.

2 horas depois da drenagem, o paciente evolui com piora da dispneia. Sa02 caiu para 86% apesar de estar com CBN e suplemento de oxigênio a 4 L/min. O CBN foi substituído por máscara facial com reservatório a 8L/min, obtendo uma melhora da saturação para 96%.

Uma ultrassonografia pulmonar à beira do leito (POCUS) foi realizada, mostrando sinais de um pequeno pneumotórax na parte superior do pulmão direito (presença de linhas A, ausência de deslizamento pleural e de linhas B), com presença do sinal do ponto pulmonar (lung point) na linha axilar anterior, consolidação no lobo inferior direito com presença de broncograma aéreo estático e dinâmico e áreas de  síndrome intersticial nas áreas remanescentes associadas a uma linha pleural irregular: 
A ultrassonografia pulmonar mostra no vídeo, na primeira parte, uma ampla consolidação de todo o lobo inferior direito, com broncograma aéreo, mostrado o pulmão com ecotextura parecida com o fígado (hepatizaão) traduzindo imagem de consolidação ultrassonográfica. Na segunda parte, com uma sonda linear, vemos o pneumotórax no quarto espaço intercostal medial ao mamilo, visualizando-se o ponto pulmonar (lung point) na linha axilar anterior. Na terceira parte do videi, observa-se, perto do ponto pulmonar, uma área de edema intersticial caraterizado pela presença de linhas B patológicas e irregularidade da linha pleural. 

Uma tomografia computadorizada de tórax foi realizada. O laudo descreveu um pequeno pneumotórax apical e uma consolidação inflamatória no lobo inferior direito. O quadro intersticial de natureza infecciosa também foi visto na parte superior do lobo médio. Nenhum derrame pleural foi evidenciado (figura 3).


Figura 3. TC de tórax pós drenagem

O paciente foi então submetido a VNI com 7 cm H2O de PEEP. Monitorou-se com USG pulmonar a cada 2 horas e observou-se um recrutamento alveolar rápido da área de consolidação. 
A ultrassonografia pulmonar é repetida durante uma ventilação não invasiva (VNI), usando 7 cm H2O de PEEP. Apreciamos o recrutamento de áreas distais dentro da consolidação.

Importante redução da área de consolidação ocorreu 8 h após o diagnóstico (4h com PEEP e 4h com oxigênio através de cânula nasal). 
Se compararmos este vídeo com os primeiros, podemos ver uma grande redução na dimensão da área consolidada (o fígado está à direita), enquanto a área intersticial na periferia é maior.

Resolução completa da consolidação ocorreu após 48 h, com sinais apenas de síndrome intersticial residual. O Rx normalizou nos 2 dias subsequentes. O paciente recebeu alta após 5 dias de internação.

DISCUSSÃO:

O edema pulmonar de reexpansão (EPRE) é uma doença que ocorre como complicação da reexpansão do pulmão colabado, após drenagem de um pneumotórax, derrame pleural ou após reexpansão de uma atelectasia existente previa de outra etiologia. Foi descrito pela primeira vez em 1958[1].

Sua incidência é considerada rara. Echevarria e col., publicaram um artigo no qual consultaram o Medline e pesquisaram artigos datados de 1950 a janeiro de 2008. Dos 233 artigos revisados, 13 forneceram informações sobre a existência de EPRE com incidência relatada de 0% a 1%. Mynarek e col. encontraram ocorrência 0 de EPRE após investigar 711 procedimentos de toracocentese guiados por ultrassonografia realizados em 371 pacientes. Rozenman e col. detalharam sua experiência em um período de 8 anos em que 180 pacientes apresentaram 320 episódios de pneumotórax e apenas em 3 dos 320 casos, EPRE foi diagnosticado. Todos esses artigos concluem que a EPRE, em geral, é realmente uma entidade rara[2].

Quanto à sua etiologia, a causa do EPRE é ainda hoje considerada desconhecida. Apesar de mais de 60 relatos de casos terem sido descritos na literatura em um período de 50 anos, a fisiopatologia dessa entidade é ainda obscura. Muitos autores citam como fatores predisponentes: o tempo prolongado de colapso (> 3-7 dias); rapidez da reexpansão (< 10 min usando um sistema de sucção); intensidade da reexpansão (evacuação de > 2.000 mL em caso de derrames, sendo recomendado 1-2L a cada 2 horas) como principais fatores predisponentes do EPRE. Alguns dos fatores de risco descritos parecem ser tabagismo, idade (aumento do risco em pacientes mais jovens) e sexo (maior no sexo feminino)[3] [4]. Meriand e col., também sugerem um aumento da permeabilidade microvascular e/ou alveolar pulmonar, já que em seu estudo, PCP e PAP normais descartaram aumento da pressão hidrostática como causa[5]. Entretanto publicações mais recentes em paciente com função ventricular diminuída apontam que uma reexpansão pulmonar após evacuação de liquido ou ar associado à inspiração do paciente, gerará pressões pleurais negativas, aumento do retorno venoso e do enchimento ventricular com consequente aumento da pressão transpulmonar (pressão intracavitária – pressão pleural), e da pós-carga ventricular, prejudicando o desempenho ventricular com consequente aumento da pressão capilar pulmonar e edema intersticial[6].

Numa consulta atualizada usando como fonte o UpToDate, encontramos que EPRE é considerado uma das formas de Edema Pulmonar Não Cardiogênico (EPNC)[7] que geralmente ocorre unilateralmente após rápida reexpansão do pulmão colapsado (tipicamente por mais de três dias) em pacientes com pneumotórax, com taxas variando de 16 a 33%. Os fatores de risco incluem diabetes, tamanho do pneumotórax e presença de derrame pleural. Embora raramente (1%), pode seguir-se a evacuação de grandes volumes de líquido pleural (> 1 a 1,5 litros) ou a remoção de um tumor endobrônquico obstrutivo que provocou atelectasia. O mecanismo fisiopatológico é desconhecido. Os mecanismos propostos incluem lesão direta e disfunção do surfactante no pulmão atelectásico crônico, aumento das pressões transpleurais quando pressões pleurais excessivamente negativas são criadas durante a remoção de fluidos ou ar, ou lesão indireta da reperfusão da área reexpandida. O EPRE parece estar relacionado à rapidez da reexpansão pulmonar e à gravidade e duração do colapso pulmonar antes da reexpansão. No entanto, um estudo que examinou o desenvolvimento de edema pulmonar de reexpansão após toracocentese mostrou que era independente do volume de líquido retirado e das pressões pleurais, e recomendou que mesmo grandes derrames pleurais fossem drenados completamente enquanto a dor torácica ou a pressão pleural expiratória final fossem menores que -20 cmH2O. Os pacientes geralmente desenvolvem rapidamente o quadro (minutos a horas), embora a apresentação possa ocorrer após 24 a 48 horas em alguns casos. O curso clínico varia de alterações radiográficas isoladas a colapso cardiopulmonar completo, mas a maioria dos pacientes apresenta dispneia de início agudo, tosse e hipoxemia. Os achados típicos de TC incluem opacidades em vidro fosco ipsilaterais, espessamento septal, consolidação focal e áreas de atelectasia. Uma taxa de mortalidade tão alta quanto 20% foi descrita em uma pequena revisão. No entanto, consistente com a nossa experiência, a mortalidade é muito menor com as séries maiores e posteriores relatando uma taxa de mortalidade inferior a 5%[8].

Muitos autores acreditam que o EPRE deve ser incluído na lista de causas de síndrome do vazamento capilar difuso[9]. O edema intersticial e o colapso alveolar com atelectasia compressiva ocasionado podem levar a hipoxemia e se uma quantidade suficiente de fluido for sequestrada no interstício pulmonar, hipovolemia e choque podem ocorrer. Pacientes com casos leves de EPRE podem necessitar apenas oxigênio por cateter nasal. VNI pode ser necessária em caso de hipoxemia moderada/grave. A ventilação mecânica invasiva é a última opção no caso de falha de ventilação não invasiva. Normalmente, os achados da radiografia torácica são inespecíficos e apresentam grau variável unilateral de opacidades do espaço aéreo[10].

Considerando a fisiopatologia da EPRE, no caso relatado esperava-se encontrar um perfil “B” ou um “pulmão branco” no USG pulmonar realizado. Causou surpresa encontrar uma ampla consolidação no lobo inferior direito. Em razão do EPRE poder imitar outras doenças ou levar a doenças pulmonares inesperadas subjacentes que podem estar escondidas no pulmão colapsado, a diferenciação radiológica do EPRE com outras lesões pulmonares deve ser sempre feita.
Em 2010, Kim e col., realizaram uma tomografia computadorizada de alta resolução em de todos os seus pacientes com EPRE, procurando sinais patognomônicos. Na maioria dos casos, os resultados mostraram áreas de opacidade em vidro fosco, consolidações e espessamento intersticial (intra e interlobular). Infelizmente, nenhum destes é específico para o EPRE[11].

O que pode ajudar no diagnóstico diferencial entre pneumonia e EPRE é o quadro clínico: um rápido início e uma resolução dramática dentro de algumas horas de iniciada a ventilação não invasiva com PEEP aponta para presença de EPRE.

O USG pulmonar tornou-se comumente usados nas últimas décadas, não só em cuidados intensivos, medicina de emergência, ou cirurgia do trauma, mas também na clínica médica e pneumologia[12]. Isso ocorreu porque o USG é feito com equipamentos relativamente baratos, é um exame rápido (5 min para a maioria dos usos na medicina interna), e pode ser realizado e repetido a beira leito (POCUS) sem efeitos colaterais[13].

USG pulmonar a beira leito já é um exame consagrado com exaustivos estudos publicados validando seu uso desde os trabalhos de pesquisa feito por professores renomados como o francês Daniel A. Lichtenstein e o italiano Giovanni Volpicelli, por citar apenas 2 nomes de uma grande lista de ícones do ultrassom poin-off-care (POCUS).

Há muito tempo já se sabe que tanto a radiografia de tórax (Rx) quanto a tomografia computadorizada de tórax (TC) têm limitações no diagnóstico de doenças pulmonares do paciente crítico[14]. O pneumotórax, trata-se de uma patologia que utiliza a radiografia de tórax como método de diagnóstico padrão. Entretanto alguns casos podem não ser detectados. A tomografia, embora de grande utilidade, reveste-se de maior custo e riscos para o paciente, decorrentes do uso de radiação e das complicações durante o transporte até o centro de imagem. Durante muito tempo, a ultrassonografia torácica foi considerada um método inútil para avaliar as patologias pulmonares. O estudo e a classificação de determinados padrões de imagens adquiridos com a ultrassonografia pulmonar permitiram que esse exame se transformasse em uma opção diagnóstica e de monitorização muito promissora.

Em 2009 o prof. Daniel A. Lichtenstein e col., publicar um estudo correlacionado o perfil detectado pelo USG pulmonar e a pressão capilar pulmonar. Aponta que ≥ 3 linhas “B” visualizadas em um mesmo espaço intercostal é indicativo de patologia, imagem denominada de “rastro de foguete” caracterizando a síndrome intersticial. No artigo faz uma interessante correlação entre o padrão ultrassonográfico e tomográfico (figura 4):

Figura 4: Nas imagens superiores vemos: A: espaço intercostal com uma linha “B”, sem significado patológico, sinalizando um sujeito saudável. Em B e C espaços intercostais com ≥ 3 linhas “B” que nascem da pleura (rastro do foguete) definindo a síndrome intersticial. Ainda, em B observa-se 4 ou 5 linhas “B” separadas por uma distância aproximada de 7mm entre elas (medidas na linha pleural) pelo que são denominadas de “linhas B7” que se correlacionam com septos interlobulares subpleurais espessados. Em C, a distância entre as linhas “B” é de aproximadamente 3mm pelo que se denominam “linhas B3” que se correlacionam com lesões subpleurais em padrão de vidro fosco. Nas imagens inferiores observamos a correlação de imagens tomográficas com as do ultrassom. Em 1, tomografia computadorizada normal. Nenhum elemento é visível na parede torácica anterior, correlaciona-se com a imagem A. Em 2, síndrome alveolar e intersticial aguda. Os septos subpleurais e interlobulares são espessados (setas) e, portanto, visíveis na tomografia computadorizada, correlacionando-se com a imagem B do ultrassom. Em 3, áreas em vidro fosco se apoiam no pulmão anterior esquerdo (setas), correlaciona-se com a imagem C do ultrassom. As lesões em “vidro fosco” observadas à TC de tórax nas síndromes intersticiais mais graves têm correlação com a presença de linhas B3. Entretanto, independentemente da terminologia utilizada, quanto mais linhas “B” presentes por espaço intercostal tanto maior o número de septos interlobulares subpleurais espessados por líquido ou fibrose. Lichtenstein e cols encontraram uma correlação positiva entre as alterações radiográficas e a presença de linhas “B” patológicas com uma sensibilidade e especificidade muito boas, ambas de 93%. Quando utilizaram a tomografia computadorizada de tórax como referência, a correlação foi completa[15].

Roberto Copetti e col., num estudo publicado em 2008 buscando critétios para distinguir entre edema intersticial hidrostático (edema agudo de pulmão cardiogênico) e edema pulmonar inflamatório (SARA), evidenciaram que linhas “B” patológicas foram encontradas em pacientes com ambos tipos de edema. Anormalidades da linha pleural foram detectadas em todos os pacientes com edema inflamatório e em apenas 25% dos pacientes com edema hidrostático (figura 5). Ausência ou diminuição do deslizamento pulmonar foi observada em 100% dos pacientes com edema inflamatório e em nenhum dos pacientes com edema hidrostático. Consolidações foram detectadas em 83,3% dos pacientes com edema inflamatório e em nenhum dos pacientes com edema hidrostático. Derrame pleural foi encontrado em 66,6% dos pacientes com edema inflamatório e em 95% dos pacientes com edema hidrostático (figura 6).

Figura 5. Em A, linha pleural irregular do edema inflamatório. Em B linha pleural do edema hidrostático
Figura 6. Derrame pleural associado a edema de tipo inflamatório

Além disso, nos casos de edema inflamatório, puderam ser identificadas:

- Alterações pleurais decorrentes de pequenas consolidações subpleurais (figura 7):

Figura 7. consolidações subpleurais

- Áreas denominadas “poupadas”, definidas como regiões pulmonares com aspecto ultrassonográfico normal cercadas por áreas com a presença de múltiplas linhas “B” (figuras 8 e 9):

Figura 8. Em A: áreas poupadas (spared area). Em B pulmão branco (White lung)

Figura 9. Comparação de área poupada e pulmão branco

- Diversas consolidações de tamanhos variados (figura 10):

Figura 10. Consolidações com broncogramas aéreos

Ponto Pulmonar. No ano 2000, o professor Daniel A. Lichtenstein e col.  descrevem o Ponto Pulmonar (lung point) como um sinal específico de pneumotórax. Um achado ultrassonográfico caracterizado por áreas de deslizamento pulmonar ou de linhas “B” alternadas com áreas sem deslizamento pleural ou linhas “B” ou aparecimento exclusivo de linhas “A”. O ponto em que ambas areas alternam tem se denominado de “ponto pulmonar”, descrito como um sinal específico de pneumotórax. O “ponto pulmonar” teve, nesse estudo, uma sensibilidade de 66% (75% no caso de pneumotórax oculto à radiografia convencional) e uma especificidade de 100%. O equivalente à ausência de deslizamento no modo M corresponde ao “sinal da estratosfera” para distinguir da área com deslizamento que corresponde ao “sinal da praia”[16] (figura11).

Figura 11. Em A, fase expiratória do ciclo, mostra pulmão menos insuflado com o ponto pulmonar (interface entre pulmão aerado e pneumotórax) sinalizado pela seta. Em B a insuflação pulmonar movimenta a área de pulmão aerado, deslocando o ponto pulmonar. Em C na expiração, área de pneumotórax, com ausência de deslizamento pleural, ausência de linhas “B” e presença de linhas “A”. Em D, sem deslocar o probe, na inspiração aparece uma área areada como um véu ou cortina que aparece e desaparece com os movimentos respiratórios (sinal da cortina). Em E, o sinal da estratosfera (ausência de deslizamento pleural) e da praia (com deslizamento pleural).

Consolidação ultrassonográfica. O conceito de consolidação ultrassonográfica difere do clássico conceito em que quase se usa como sinônimo de pneumonia. Em 2004 o próprio Daniel A. Lichtenstein e col. estabelecem os critérios ultrassonográficos para o estudo das consolidações ultrassonográficas. Em diversas patologias pulmonares agudas ocorre consolidação dos pulmões que toca a superfície pleural em pelo menos 98,5% das vezes, o que permite a exploração confiável por meio da ultrassonografia. O pulmão consolidado apresenta um aspecto ecogênico, com uma aparência ultrassonográfica que lembra a do fígado. Juntamente descreve o “sinal do retalho de pano” como uma área subpleural, irregular, hipoecogênicas, de aspecto “picotado”, semelhante a um “retalho de pano” associada geralmente a área de consolidação pneumônica ou de necrose. Ainda a presença de broncogramas (ar dentro das vis respiratórias distais), podem ser evidenciadas pela ultrassonografia, no interior da consolidação, como opacidades hiperecogênicas, que podem ser puntiformes ou lineares (o ar no ultrassom aparece hiperecogênico). Tais imagens podem ser estáticas (ar aprisionado) ou dinâmicas (ar se movimentando com o ciclo respiratório) em relação ao ciclo respiratório e nesse caso encontram-se sob a influência do fluxo aéreo nas vias aéreas (figuras 12 e 13)[17].

Figura 12. Em a) Imagens de USG pulmonar mostrando a consolidação pulmonar e dentro imagens de broncogramas lineares e pontiformes. Destaque-se a imagem de consolidação pulmonar com a ecotextura do fígado (”hepatização”). Em b) a correspondência coma imagem de consolidação pela tomografia.

Figura 13. Imagem do sinal do retalho de pano, que corresponde a área de necrose tecidual geralmente associada a consolidação pneumônica ou abscesso.

O tratamento é de suporte, consistindo principalmente de oxigênio suplementar e, se necessário, ventilação mecânica a pressão positiva (PEEP) que utiliza os mecanismos já comprovados no EAP cardiogênico. Neste caso recrutando áreas colabadas e assim aumentando a complacências pulmonar. A doença geralmente é autolimitada. De fato, existem já estudos publicados que comprovam o uso da ultrassonografia pulmonar no diagnóstico da atelectasia e na monitorização de sua resolução após manobras de recrutamento alveolar na SARA. Gerardo Tusman e outros pesquisadores tem publicado estudos em que a ultrassonografia pulmonar foi útil na detecção da presença de atelectasias decorrentes do recrutamento tidal e na sua resolução após uma manobra de recrutamento alveolar (figura 14)[18] [19] [20] [21].

Figura 14. USG pulmonar na manobra de recrutamento alveolar.

CONCLUSÃO:

1. EDEMA PULMONAR DE RE-EXPANSÃO (E.P.R.E.)  pode ser uma complicação rara de edema pulmonar intersticial associado a áreas de atelectasia pulmonar que ocorrem após drenagem de pneumotórax, derrame pleural ou reexpansão de atelectasia previa de outra etiologia. Deve ser suspeitada quando o paciente apresenta após a drenagem ou reexpansão, súbita piora clínica com dispneia e dessaturação.

2. Deve se fazer o diagnóstico diferencial de EPRE de outras patologias pleuro-pulmonares com base na forma de apresentação, exame clínico e exames radiológicos e laboratoriais.

3. Os estudos de radiografia torácica e tomografia computadorizada são úteis, mas não específicos para diagnosticar EPRE.

4. A ultrassonografia pulmonar a beira leito (POCUS) é um exame já consagrado não apenas em cuidados intensivos, emergência, anestesiologia e cirurgia de trauma, mas também em medicina interna e pneumologia. Muitos autores já publicaram inúmeros estudos sobre a aplicação da ultrassonografia pulmonar em diferentes contextos e patologias, sendo o derrame pleural, o pneumotórax, a pneumonia e a SARA algumas de suas principais aplicações.

5. Existem estudos que comprovam a utilidade da ultrassonografia pulmonar no diagnóstico das atelectasias pulmonares assim como no acompanhamento resolutivo através das manobras de recrutamento alveolar. 

6. Este relato de caso sugere que o USG pulmonar a beira leito pode ser uma boa alternativa à radiografia torácica e tomografia computadorizada para identificar EPRE e acompanhar a sua resolução.




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