sábado, 26 de junho de 2021

 

TERAPIA ANTIBIÓTICA INALATÓRIA EM TEMPOS DE ESGOTAMENTO DE RECURSOS E AUMENTO DA RESISTÊNCIA BACTERIANA

Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico Responsável Técnico e Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos. Coordenador da Residência em Medicina Intensiva – COREME e membro do Grupo Técnico de Enfrentamento à COVID -19 da Santa Casa de São Jose dos Campos.



INTRODUÇÃO

A pandemia provocada pela COVID-19, vem gerando um uso irracional de antibióticos e, por conseguinte um assustador aumento de germes multirresistentes, dos quais se destacam bactérias Gram negativas como klebsiella pneumopniae, pseudomona aeruginosa e acinetobacter baumanni produtores de β-lactamase resistentes aos carbapenêmicos. Mas não apenas Gram negativos resistentes aos carbapenêmicos estão em aumento. Estamos vendo aumento também de Gram positivos como o enterococo faecium ou enterococo faecalis resistente a vancomicina (ERV) aparecendo nas culturas. Cria-se um círculo vicioso em que a aparição destas bactérias multirresistentes obriga ao uso de antibióticos de amplo espectro, que por sua vez gera mais resistência antimicrobiana.

Apesar dos poucos dados disponíveis sobre a incidência do aumento da multirresistência dos germes nosocomiais durante a pandemia da Covid-19, o que se está sendo observado é que há realmente um aumento considerável na aparição destes microrganismos nos resultados das culturas solicitadas a pacientes graves nas UTIs Covid e não Covid (estas ultimas, muitas vezes usadas como unidades pós Covid para pacientes que terminam o período de transmissibilidade, os quais ainda necessitam de suporte intensivo e são admitidos já colonizados ou infectados por estes germes multirresistentes). Percebe-se assim, um notável aumento na prescrição de antimicrobianos, ainda que não seja observado um aumento proporcional no número real de co-infecções. As estimativas sugerem que cerca 60-70% dos pacientes são tratados com antimicrobianos, ainda que de 1% a 10% tenham apresentado verdadeiramente co-infecção fúngica ou bacteriana. Esses pacientes podem, portanto, estar recebendo desnecessariamente antibióticos, em razão de um diagnóstico equivocado, guiado apenas pela presença de microrganismos nas culturas. A atual pandemia provocada pelo coronavírus, realmente está gerando uma outra pandemia futura mais preocupante: a dos germes multirresistentes[1] [2]. Importante salientar que já em 2016, por exemplo, foi lançado um alerta para aparição de cepas resistentes às polimixinas mediada por plasmídeos (mcr-1)[3].

Não bastasse, fungos resistentes como cândida krussei ou glabrata, ou ainda fungos emergentes como a cândida auris estão se tornando uma séria ameaça contra a saúde pública, que motivou em dezembro de 2020, o lançamento de uma alerta da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)[4]. Mais recentemente, em junho deste ano, a própria Anvisa publicou a NOTA TÉCNICA GVIMS/GGTES/ANVISA Nº 04/2021, que fornece orientações para vigilância, identificação, prevenção e controle de infecções fúngicas invasivas em serviços de saúde no contexto da pandemia da COVID-19, salientando a ocorrência de mucormicose nos pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e em uso de elevadas doses de corticóides para tratamento da Covid-19[5].

Antes da pandemia, a situação já era preocupante e num cenário mais drástico, até 2050, a chamada resistência microbiana (doenças resistentes a antibióticos) poderá estar associada a 10 milhões de mortes anuais, conforme afirmou em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje, acredita-se que pelo menos 700 mil pessoas morrem por ano devido à essa resistência microbiana[6]. De acordo com o relatório anual da Organização Mundial da Saúde (OMS), os novos antibióticos atualmente em desenvolvimento não são capazes de tratar as bactérias resistentes, conhecidas como superbactérias. A revisão de 2020 avaliou candidatos a drogas antibacterianas em estágios de desenvolvimento clínico e pré-clínico em todo o mundo e concluiu que o mundo ainda não está desenvolvendo os tratamentos antibacterianos de que precisa para conter o avanço das bactérias resistentes a medicamentos, que estão descritas na Lista de Patógenos Bacterianos Prioritários da organização. Atualmente, estão em desenvolvimento 43 antibióticos que, entretanto, não são capazes de conter as superbactérias descritas na Lista de Patógenos Bacterianos Prioritários da OMS, que inclui 13 bactérias e que tem sido usada para informar e orientar áreas prioritárias para pesquisa e desenvolvimento desde 2017. Estudo da OMS revela que a grande maioria dos antibióticos disponíveis no mercado é de variações de antibióticos descobertos na década de 1980. Ainda de acordo com esse mapeamento, as perspectivas de mudança dessa realidade são distantes, visto que apenas alguns antibióticos foram aprovados por agências regulatórias nos últimos anos e, atualmente, existem alguns produtos promissores em estudo e desenvolvimento, mas apenas uma fração deles chegará ao mercado devido aos desafios econômicos e científicos. O processo de desenvolvimento de novos antibióticos é caro e trabalhoso[7].

Uma das combinações mais usadas e efetivas de antibióticos usados para tratar infecções bactérias multirresistentes em hospitais principalmente do SUS (especialmente infecções pulmonares como a PAV), a da Polimixina B associada a um carpabenêmico como o meropenem ou imipenem, está em falta no está no Brasil inteiro desde o início do ano devido à falta de importação de matéria prima[8]. Essa falta de Polimixina B associada a um aumento de bactérias resistentes aos carbapanêmicos, está gerando uma situação de angustia e desespero diante da falta de opções ou alternativas terapêuticas efetivas que possam substituir à Polimixina no tratamento dessas infecções por germes multirresistentes. Os aminoglicosídeos têm pouca penetração pulmonar por via sistêmica pelo que seu uso isolado perde eficácia. Novos medicamentos como o ceftazidima-avibactam não está disponível na maioria dos hospitais públicos devido a seu elevado custo e mesmo disponível, tem limitada ação para a maiorias das cepas de acinetobacter baumanni resistente aos carbapenêmicos. Neste cenário, em muitos lugares está se usando doses endovenosas máximas de carbapenêmicos para tentar atingir o MIC necessário (aumentando o risco de esgotamento também destes medicamentos) e de aminoglicosídeos (aumentando o risco de efeitos adversos, principalmente de nefrotoxicidade e ototoxicidade). A situação se torna mais preocupante quando as bactérias ademais de resistente aos cabapanêmicos são também resistente aos aminoglicosídeos.

Urge, portanto, que neste cenário de eventual aumento da mortalidade de pacientes por falta de antibióticos, sejam adotadas providências não apenas do ponto de vista administrativo, por parte das autoridades governamentais para garantir o abastecimento de opções alternativas de antibióticos, diante da falta da Polimixina B, como foi feito quando houve esgotamento de leitos de UTI, ou de medicamentos para sedação e bloqueio neuromuscular, mas também por parte das sociedades científicas para buscar alternativas de tratamento com os antibióticos hoje disponíveis.

Nesta situação de guerra, a TERAPIA INALATÓRIA DE ANTIBIÓTICOS, bastante usadas em outros países do mundo, pode ser uma alternativa eficaz desde que utilizada dentro de certos critérios e requisitos de segurança, descritos pela literatura.

Embora, como será apresentado agora, exista ainda controvérsia na literatura, não se pode negar a existência de muitos estudos positivos e recomendações de sociedades cientificas mundiais balizando seu uso. Deve se levar em consideração que nos dias de hoje, procedimentos como TGI (injeção trans traqueal de gás) para manejo da hipercapnia grave vem sendo usada sem evidência consistente na literatura e ainda através de dispositivos improvisados como já amplamente revisado neste blog (http://blogdeterapiaintensiva.blogspot.com/). Da mesma forma, durante a pandemia temos visto como diante do esgotamento de medicamentos para sedação e analgesia do paciente crítico, tem se recorrido ao uso de outros medicamentos nunca antes usados para essa finalidade e ainda estratégias como anestesia no cenário da UTI, tudo isso com aval da comunidade científica brasileira por se tratar de medidas excepcionais em situação também excepcional.

Da mesma forma deve se proceder com a terapia inalatória de antibióticos, mas ainda considerando que existe ampla literatura que fornece subsídios para seu uso com racionalidade e segurança.

 

REVISÃO DO UPTODATE[9]:

Colistina (polimixina E), polimixina B e aminoglicosídeos em aerossol podem ser usados ​​como terapia substitutiva ou adjuvante (em combinação com antibióticos intravenosos) em pacientes com PAV ou PAH, causada por bacilos gram-negativos multirresistentes (BGN-MDR), como Klebsiella pneumoniae, Pseudomona aeruginosa e Acinetobacter baumannii[10] [11] [12] [13] [14] [15] [16] [17].

A aerossolização pode aumentar as concentrações de antibióticos no local da infecção e pode ser particularmente útil para o tratamento de organismos que têm MICs elevados para agentes antimicrobianos sistêmicos[18]. No entanto, a evidência que apoia o uso de antibióticos em aerossol não é forte[19] [20] [21] e a administração pode estar associada a efeitos adversos, particularmente em pacientes hipoxêmicos[22] [23]. De modo geral, o conhecimento sobre o uso mais adequado de antibióticos em aerossol está evoluindo.

Como exemplos, uma meta-análise de 2015, de 6 ensaios observacionais e 6 ensaios randomizados, a adição de antibióticos em aerossol aos antibióticos intravenosos foi associada a taxas mais altas de cura clínica nos estudos observacionais, mas não nos ensaios randomizados[24]. Não houve diferenças nas taxas de cura microbiológica, duração da ventilação mecânica ou mortalidade entre os pacientes que receberam e não receberam antibióticos em aerossol. A meta-análise incluiu apenas 812 pacientes, ressaltando a falta de dados robustos. Em uma outra meta-análise de 2017, que incluiu dados de eventos adversos, 9% dos pacientes em 4 estudos randomizados que receberam antibióticos em aerossol desenvolveram complicações cardiorrespiratórias[25]. Estes incluíram o agravamento da hipoxemia, bem como parada cardíaca devido à obstrução do filtro expiratório do circuito do ventilador.

Uma outra meta-análise de 2015, analisou o impacto potencial da adição de colistina em aerossol à colistina intravenosa em particular[26]. A meta-análise incluiu 7 estudos observacionais e um ensaio randomizado. Os pesquisadores relataram melhores resultados clínicos e taxas de erradicação microbiológica associadas à colistina em aerossol. Houve uma tendência não significativa para taxas de mortalidade mais baixas com colistina em aerossol (odds ratio 0,74, IC 95% 0,54-1,01, p = 0,06), mas nenhuma diferença nas taxas de nefrotoxicidade. A qualidade geral da evidência foi considerada baixa.

Com relação a amicacina, um ensaio prospectivo, randomizado não cegado e de centro único de 133 pacientes de cirurgia cardíaca publicado em 2018, comparou a eficácia e nefrotoxicidade da amicacina inalatória versus endovenosa em pacientes de cirurgia cardiaca com pneumonia nosocomial (PAH e PAV) causada por bacilos gram-negativos multirresistentes. O primeiro grupo recebeu amicacina intravenosa 20 mg/kg uma vez ao dia diluída em 100mL de solução salina 0,9% normal (SF) infundida durante 1 hora (a dose foi ajustada diariamente com base na CrCl estimada). O segundo grupo recebeu amicacina 400 mg em nebulizador duas vezes ao dia diluída em 10mL. O nebulizador foi preparado misturando 3mL de SF com os 2mL do frasco de amicacina (500mg), perfazendo mistura total de 5ml (100mg/ml) dos quais 4mL foram retirados e adicionados ao copo nebulizador com 6mL de SF. Ambos os grupos receberam concomitantemente por via intravenosa piperacilina/tazobactam de forma empírica.

Nebulizador pneumático foi usado para pacientes ventilados e nebulizador ultrassônico para pacientes não ventilados. Os autores concluem que a amicacina inalada (em comparação com a amicacina intravenosa) resultou em maiores taxas de cura quando usado junto com piperacilina-tazobactam empírico. Não houve diferença na mortalidade entre as duas coortes. Também concluem que amicacina inalada resulta em menos nefrotoxicidade e desmame mais rápido do ventilador[27].

Por outro lado, um ensaio clinico multicêntrico, randomizado publicado em 2016 (IASIS Trial) comparou amicacina/fosfomicina aerossolizada (grupo AIFS) com placebo como terapia adjuvante para PAV entre 143 pacientes com PAV devido a bacilos gram-negativos. Todos os pacientes receberam meropenem ou imipenem IV (em doses calculadas com base nas diretrizes locais) para cobertura de gram-negativos por 7 dias, e mais tempo se clinicamente indicado. A randomização e o primeiro tratamento AFIS/placebo tiveram que ocorrer dentro de 72 horas do início dos antibióticos IV para o episódio de pneumonia. O tratamento do estudo consistiu em AFIS ou placebo administrado duas vezes ao dia por até 10 dias. O AFIS incluiu 300 mg de amicacina base e 120 mg de fosfomicina, com pH e osmolalidade ajustados por ácido clorídrico, em 6 mL de água estéril sem conservantes. O placebo incluiu 6 mL de solução salina a 0,9%. AFIS/placebo foram administrados com um nebulizador ultrassónico colocado próximo ao conector Y do ventilador funcionando continuamente por aproximadamente 12 minutos. A umidade foi mantida durante o tratamento. 65 pacientes receberam todos os 10 dias de tratamento planejado (AFIS: n = 36; placebo: n = 29). 78 pacientes que interromperam o tratamento precocemente e apenas 3 no grupo AFIS interromperam devido a eventos adversos. 27 pacientes foram extubados antes de terminar o curso de tratamento de 10 dias. Não houve diferenças entre os grupos na cura clínica, mortalidade ou dias livres de ventilação[28].

Da mesma forma, em 2020 publicou um estudo de fase 3 prospectivo, duplo-cego, randomizado, controlado por placebo, composto por dois ensaios (INHALE 1 e INHALE 2) realizados em 153 unidades hospitalares de terapia intensiva em 25 países. Os pacientes elegíveis tinham 18 anos ou mais; tinha pneumonia diagnosticada por radiografia de tórax e documentada como sendo causada por ou mostrando dois fatores de risco para um patógeno Gram-negativo multirresistente; foram intubados e ventilados mecanicamente; tiveram oxigenação prejudicada dentro de 48 horas antes da triagem; e tiveram uma pontuação de infecção pulmonar clínica modificada de pelo menos 6. Os pacientes foram estratificados por região e gravidade da doença (de acordo com sua pontuação aguda de fisiologia e avaliação crônica da saúde [APACHE] II) e designados aleatoriamente (1: 1) para receber 400 mg de amicacina em 3.2ml de soro fisiológico (Amikacin Inhale) ou 3.2ml de soro fisiológico placebo, ambos aerossolizados, administrados a cada 12 h por 10 dias por meio do mesmo sistema de inalação sincronizada e administrados juntamente com o tratamento padrão antibióticos intravenosos. Todos os pacientes e toda a equipe envolvida na administração de dispositivos e no monitoramento dos resultados foram cegados para a atribuição do tratamento. O desfecho primário, sobrevida nos dias 28-32, foi analisado em todos os pacientes que receberam pelo menos uma dose do medicamento do estudo, estavam infectados com um patógeno gram-negativo e tinham um escore APACHE II de pelo menos 10 no diagnóstico. 725 pacientes foram aleatoriamente designados para Amikacin Inhale (362 pacientes) ou placebo em aerossol (363 pacientes). 712 pacientes receberam pelo menos uma dose do medicamento do estudo (354 no grupo Amikacin Inhale e 358 no grupo placebo), embora um paciente designado para Amikacin Inhale tenha recebido placebo por engano e foi incluído no grupo placebo para análises de segurança. 508 pacientes (255 no grupo de inalação de amicacina e 253 no grupo de placebo) foram avaliados para o desfecho primário. Não se encontrou diferença entre os grupos: 191 (75%) pacientes no grupo Amikacin Inhale versus 196 (77%) nenhuma diferença significativa entre os regimes em 28 dias sobrevida, resposta clínica, duração da ventilação mecânica ou tempo de permanência na unidade de terapia intensiva. Concluem os autores que os achados não apoiam o uso de amicacina inalatória adjuvante à terapia intravenosa padrão em pacientes ventilados mecanicamente com pneumonia por gram-negativos[29].

Recomendações em vigor da American Thoracic Society and the Infectious Disease Society of America (2106)[30]

As diretrizes em vigor para pneumonia nosocomial da American Thoracic Society and the Infectious Disease Society of America orientam que:

"para pacientes com PAV devido a bacilos gram-negativos que são suscetíveis apenas a aminoglicosídeos ou polimixinas, sugerimos antibióticos inalados e sistêmicos, em vez de apenas antibióticos sistêmicos (recomendação fraca, com baixa qualidade de evidência)”

Trata-se de uma recomendação baseada numa revisão sistemática que identificou 9 estudos de antibióticos inalados como terapia adjuvante para PAV devido a bacilos gram-negativos. 5 dos estudos eram ensaios clínicos randomizados e 4 eram estudos observacionais. Três antibióticos inalados diferentes foram administrados nos estudos: tobramicina, gentamicina e colistina. A maioria dos estudos forneceu informações mínimas sobre o dispositivo e método usado para administrar o antibiótico inalado. Os organismos predominantes isolados nos estudos foram Klebsiella pneumoniae MDR, P. aeruginosa e A. baumannii. Tais metanálises mostraram que a adição de um antibiótico inalado a um regime antibiótico sistêmico melhorou a taxa de cura clínica (ou seja, resolução dos sinais e sintomas de infecção respiratória), mas não teve efeitos na mortalidade ou nefrotoxicidade. Não houve efeitos nocivos atribuídos aos antibióticos inalados. Quando apenas os ensaios que avaliaram a colistina foram agrupados, a taxa de cura clínica melhorou de forma semelhante. Vários outros resultados foram relatados por alguns estudos. Um estudo mostrou que os antibióticos inalados reduziram a frequência da necessidade de antibióticos intravenosos adicionais. Dois estudos procuraram, mas não encontraram, aumento da resistência aos antibióticos entre os pacientes que receberam um antibiótico inalatório adjuvante. Dois estudos relataram que a colistina inalada reduzia a duração da ventilação mecânica. Os efeitos dos antibióticos inalatórios adjuvantes no tempo de internação na UTI e no hospital não foram avaliados.

A justificativa para a terapia antibiótica inalatória adjuvante é baseada em parte na observação de que a eficácia do antibiótico contra bactérias em secreções purulentas pode exigir concentrações de antibióticos > 10–25 vezes a concentração inibitória mínima (CIM); e esses níveis podem não ser alcançados apenas com terapia intravenosa e, portanto, a adição de antibióticos inalados poderia ser benéfica. O achado de baixas concentrações de antibióticos nas secreções e fluido de revestimento epitelial do pulmão durante a terapia intravenosa com aminoglicosídeos é bem conhecido. No entanto, também ocorre com outros antibióticos e sua correlação com os resultados clínicos permanece desconhecida. Estudos de colistina intravenosa em altas doses demonstraram que a concentração no soro é aproximadamente a CIM de Acinetobacter e Pseudomonas, mas as concentrações no pulmão e nas vias aéreas são mais baixas e, portanto, subterapêuticas, o que pode levar à seleção de organismos resistentes aos antibióticos.

Recomendações em vigor da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (2017)[31]

O Grupo de Estudo para Infecções em Pacientes Críticos (ESGCIP) da Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas (ESCMID) recebeu aprovação do Comitê Executivo da ESCMID para desenvolver um Documento de Posição sobre a nebulização de antibióticos em pacientes adultos com ventilação mecânica invasiva em estado crítico, avaliando as evidências disponíveis.

Uma Força-Tarefa foi convocada para desenvolver este documento, incluindo médicos intensivistas, pneumologistas, de medicina interna, anestesiologistas, microbiologistas clínicos, enfermeiras, farmacêuticos e especialistas em educação médica. A busca sistemática da literatura, a meta-análise (última pesquisa de julho de 2016) e a aplicação da metodologia GRADE foram realizadas em colaboração com o Centro Cochrane Iberoamericano (Barcelona, ​​Espanha). No geral, o painel recomenda evitar o uso de antibióticos nebulizados na prática clínica, devido ao baixo nível de evidência de sua eficácia e ao alto potencial para riscos subestimados de eventos adversos (particularmente, complicações respiratórias). Das várias recomendações, se destaca:

“Sugerimos evitar o uso de antibióticos nebulizados como colistina ou aminoglicosídeos, adicionados à terapia antibiótica IV convencional já incluindo colistina IV ou aminoglicosídeos para o tratamento de PAV causada por patógenos resistentes como prática clínica padrão (recomendação fraca, qualidade de evidência muito baixa)”.

Na revisão sistemática, o painel identificou um ECR e três estudos observacionais, envolvendo um total de 458 pacientes, avaliando a eficácia dos antibióticos nebulizados sob esta estratégia de administração para o tratamento da PAV causada por organismos resistentes. Dois estudos empregaram um nebulizador de malha vibratória, um usou dispositivos de malha vibratória e a jato, e um usou dispositivos a jato e ultrassônicos. Nenhuma diferença significativa nas taxas de resolução clínica foi observada no ECR. A meta-análise dos estudos observacionais mostrou taxas mais altas de resolução clínica no grupo de pacientes que receberam antibióticos nebulizados, duração significativamente menor de ventilação mecânica e mortalidade relacionada à PAV significativamente menor, embora a mortalidade por todas as causas não diferisse significativamente. Nenhuma diferença significativa foi observada para a duração da permanência na unidade de terapia intensiva (UTI) ou desenvolvimento de superinfecções. Nenhuma evidência foi fornecida para o surgimento de cepas resistentes. A qualidade geral da evidência foi muito baixa, devido à imprecisão e ao caráter indireto dos resultados para a maioria dos desfechos. A análise de segurança evidenciou uma maior incidência de complicações respiratórias (evidência de baixa qualidade) associadas à nebulização, e nenhuma diferença na toxicidade sistêmica (nefrotoxicidade e neurotoxicidade; evidência de qualidade muito baixa).

Apesar da Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas sugerir não usar a terapia inalatória, no mesmo ano de 2017, diretrizes francesas sugeriram o uso de polimixina E (colistimato de sódio) e/ou aminoglicosídeos nebulizados na PAV causada por BGN sensível apenas a esses medicamentos[32].


ULTIMAS REVISÕES

Duas recentes revisões publicadas abril de 2021, abordam a questão da terapia inalatória de antibióticos, considerando os dois ensaios clínicos randomizados (ECR) multicêntricos que não conseguiram demonstrar benefício da terapia inalatória na PAV (IASIS e INHALE). Uma de Maxime Desgrouas e Stephan Ehrmann, sobre terapia inalatória antibiótica em pacientes sob ventilação mecânica, analisa tanto as recomendações americanas quanto as europeias[33]. Outra, de Antoine Monsel e col., examina os requisitos metodológicos relativos a futuros estudos clínicos randomizados[34].

Revisão de Desgrouas e Erhmann

Analisou os resultados negativos dos estudos IASIS e INHALE, e tentam explicar esses resultados se concentrando em como melhorar a terapia com antibióticos inalatórios para projetar estudos positivos no futuro.

Conforme estudos revisados pelos autores, mencionam que a terapia inalatória permitiria uma administração rápida e elevada de antibióticos aos pulmões pelo que essa via de administração deveria ser preferida do ponto de vista teórico. Pacientes criticamente enfermos em ventilação mecânica apresentam farmacocinética modificada dos antibióticos intravenosos, o que piora ainda mais a penetração do medicamento no tecido pulmonar, como ocorre, por exemplo, com os aminoglicosídeos. O aumento da dose intravenosa poderia ser uma opção, mas é limitada pela toxicidade. O uso de vias alternativas de administração, como nebulização, parece uma opção mais atraente, permitindo atingir concentrações locais aumentadas com toxicidade sistêmica baixa ou inexistente. Além disso, a resistência aos antibióticos é um efeito colateral principal dos antibióticos e um problema de saúde pública identificado pela Organização Mundial da Saúde pelo que a administração de antibióticos apenas no local da infecção seria uma maneira de evitar o surgimento de resistência, pois as bactérias comensais do intestino podem ser poupadas e as concentrações pulmonares de antibióticos seriam muito altas.

Quais seriam os fatores que limitariam o sucesso da terapia inalatória?

Quando se pretende tratar PAV, para tentar garantir sucesso com a terapia inalatória algumas considerações devem ser levadas em conta, especialmente relacionadas à ventilação mecânica. Deixar de levar em consideração as restrições da aerossolização pode levar a uma terapia ineficiente, devido à deposição pulmonar insuficiente. Deve-se ter em mente que a quantidade de antibiótico carregada no nebulizador não é a quantidade de medicamento depositada no pulmão. O volume residual que permanece na câmara do nebulizador no final da aplicação, a deposição extrapulmonar e a exalação do aerossol influenciam a dose finalmente depositada no pulmão.

Para otimizar a nebulização, vários parâmetros devem ser levados em consideração.

1. O nebulizador e sua posição. Três tipos de nebulizadores estão disponíveis: nebulizador a jato (pneumático ou de ar comprimido), nebulizador ultrassônico e nebulizador de malha vibratória (nebulizadores mesh). Posicionar o nebulizador no ramo inspiratório 15 a 40 cm antes da peça em Y aumenta a administração de drogas. A deposição também depende do fluxo de retorno, pois induz a perda de aerossol no ramo expiratório durante a expiração. Os nebulizadores de malha devem ser preferidos devido à sua facilidade de uso e eficiência. Cada um tem suas vantagens e desvantagens (Tabela 1).

 

Tabela 1. Vantagens e desvantagens dos tipos de nebulizadores


2. O volume residual e o tamanho das partículas produzidas por um determinado nebulizador. São peças chave que influenciam a eficiência. Nebulizadores ultrassônicos e de malha proporcionam um depósito maior e mais rápido no pulmão que o nebulizador de jato, principalmente por causa de um volume residual reduzido. Além disso, ao contrário do nebulizador a jato, eles não interferem no ventilador. (Fig.1).

 

Fig. 1. Influência da posição do nebulizador durante a inspiração[35]

 

3. O tamanho da partícula. É um fator essencial que influencia no depósito do medicamento. O processo de aerossolização produz gotículas de tamanhos variáveis ​​resumidos pelo diâmetro médio de massa do aerossol (DMMA), ou seja, o diâmetro em que 50% da massa do aerossol é composta por gotículas maiores e 50% da massa é composta por partículas menores. O tamanho da partícula rege essencialmente o depósito, com impregnação do circuito do ventilador sendo predominante para gotas grandes > 5 µm, deposição brônquica para gotas de 3–5 µm, deposição alveolar para partículas de 1–3 µm. Partículas que não se depositam são exaladas. Assim, a distribuição do tamanho das partículas deve ser levada em consideração para adaptar a carga do nebulizador de acordo com a porcentagem esperada de deposição de antibiótico no pulmão. Normalmente, DMMA entre 1 e 5 µm é esperado, dependendo do local alvo (partículas maiores podem se depositar nas vias aéreas proximais e tratar traqueobronquite, enquanto partículas menores são críticas para o direcionamento aos alvéolos). Após o depósito, o destino da droga é variável: remoção por depuração mucociliar, degradação e absorção.

4. Umidificação e aquecimento do ar inalado. Durante a ventilação mecânica invasiva, o ar inalado precisa ser umidificado e aquecido. Isso contribui para o aumento do tamanho das partículas e, consequentemente, modifica o depósito do aerossol. Os trocadores de calor e umidade representam uma barreira ao aerossol e devem ser removidos se forem colocados entre o paciente e o nebulizador. Desligar um umidificador aquecido ativo pode parecer útil para melhorar a administração do medicamento, mas o benefício é questionável, pois a diminuição do calor e da umidade é lenta e pode-se esquecer de ligá-lo novamente após a nebulização. Os circuitos secos dedicados à nebulização podem ser usados ​​para aumentar a saída da nebulização por meio da mudança imediata nas condições de umidade. De qualquer forma, a falta prolongada de umidificação do gás inspirado durante a nebulização (mais de uma hora) induz ao risco de oclusão do tubo traqueal, complicação que ser evitada por todos os meios.

5. Preparação da solução de antibiótico a ser nebulizado. Quando o volume residual do nebulizador é importante, deve-se aumentar a carga de fármaco no nebulizador, aumentando a concentração do fármaco ou aumentando o volume da solução carregada no reservatório do nebulizador. No primeiro caso, o tamanho da partícula e, portanto, o depósito pode ser afetado; no segundo caso, a duração da nebulização é prolongada, o que pode levar a problemas de estabilidade do medicamento.

6. Ajustes do ventilador. Na verdade, o fluxo laminar é necessário para garantir o transporte ideal dos medicamentos inalados, que podem ser comprometidos por esforços inspiratórios do paciente, por exemplo. As configurações ideais do ventilador para aumentar a deposição de aerossol são ventilação controlada com perfeita sincronia paciente-ventilador, baixo fluxo inspiratório (até 30 L/min), padrões de fluxo laminar e tempo inspiratório prolongado. Essas configurações podem ser mal toleradas por pacientes acordados na maioria dos casos. O benefício de uma curta sedação durante a nebulização ainda precisa ser avaliado.

Os parâmetros acima citados não foram totalmente levados em consideração na maioria dos estudos negativos em humanos que estudaram a eficiência dos antibióticos inalados.

Por exemplo, no estudo IASIS, o nebulizador foi colocado próximo à peça Y, a umidificação foi mantida e a configuração do ventilador deixada inalterada. O estudo INHALE usou nebulizador de malha vibratória, mas não mostrou diferença na sobrevida entre os grupos de amicacina inalada e placebo entre pacientes PAV por gram-negativos multirresistentes. Os eventos adversos também foram semelhantes. Entretanto, importante ressaltar que no estudo, as configurações do ventilador não foram modificadas durante a nebulização. A resposta clínica foi alcançada com antibióticos intravenosos de tratamento padrão em 79% dos pacientes infectados com uma cepa multirresistente e 75% com uma cepa extensivamente resistente a medicamentos no grupo de placebo. Essa alta taxa de sucesso no grupo de tratamento padrão provavelmente contribuiu fortemente para a ausência de diferenças significativas entre os grupos. Pacientes infectados com bactérias resistentes que requerem antibióticos intravenosos em altas doses e expostos a efeitos sistêmicos são provavelmente os mais prováveis ​​de se beneficiarem de antibióticos inalados.

A dose de amicacina também pode ser discutida. Entre os poucos pacientes submetidos a um lavado bronco-alveolar (LBA) no estudo INHALE, as concentrações de amicacina foram muito heterogêneas e muito baixas em um paciente. No entanto, apesar da elevada variabilidade entre os pacientes, os resultados anteriores, utilizando a mesma configuração de nebulização mostrou concentração pulmonar elevada de amicacina, constantemente através da MIC de P. aeruginosa. É importante notar que altas concentrações de um antibiótico nebulizado no LBA nem sempre refletem a concentração alveolar, pois a contaminação do fibroscópio pode ocorrer pela passagem pela árvore brônquica, onde o depósito do fármaco nebulizado é importante. Estudos observaram em leitões infectados que a concentração pulmonar de amicacina era menor quando a infecção do parênquima era extensa. Assim, amostras de secreção obtidas por aspirações traqueais e/ou LBA podem nem sempre ser representativas dos antibióticos depositados em segmentos pulmonares muito consolidados.

Curiosamente, esses grandes ensaios negativos com restrições de viabilidade importantes seguiram a vários ensaios positivos monocêntricos encorajadores. Lu et. al.  publicaram 2 estudos (2011 e 2012) sobre eficácia estimada de ceftazidima + amicacina inalada na PAV causada por P. aeruginosa; bem como da Colistina inalada na PAV causada por P. aeruginosa e A. baumannii. Em ambos os estudos, todas as técnicas de otimização de nebulização foram implementadas. Em caso de assincronia paciente-ventilador, os pacientes eram sedados. Esterilização de LBA foi obtido no prazo de 3 dias no estudo de Ceftazidima + amicacina inaladas, incluindo paciente infectado com cepas intermediárias ou resistentes de P. aeruginosa aos antibióticos nebulizados. Os resultados foram consistentes com observações pré-clínicas publicadas anteriormente. Curiosamente, a recorrência com cepas bacterianas resistentes ocorreu apenas no grupo intravenoso. Palmer et al. observaram resultados concordantes em 24 pacientes com PAV e/ou traqueobronquite, onde não foi observado aparecimento de resistência aos antibióticos após antibióticos em aerossol. Da mesma forma, Abdellatif et al. observaram que a colistina inalada não era inferior à colistina intravenosa, com menor nefrotoxicidade em pacientes que sofriam de PAV. Novamente, as configurações do ventilador foram otimizadas para melhorar a deposição pulmonar. Com a mesma dose de amicacina nebulizada do estudo INHALE, Hassan et al. observaram melhores resultados quando coadministrados com Piperacilina / Tazobactam intravenoso em um estudo monocêntrico.

Resultados negativos em relação ao uso inalatório adjuvante da colistin em PAC por gram-negativo foram observados por Rattanaumpawan et. al. Entretanto, as configurações do ventilador e a condição de nebulização não foram registradas nesse estudo.


Razões para continuar o uso de terapia inalatória

 Bactérias multirresistentes (MDR) são cada vez mais prevalentes em pacientes criticamente enfermos e representam uma preocupação crescente. A cura da PAV causada por germes MDR pode ser desafiadora de acordo com a concentração pulmonar ideal esperada de antibiótico intravenoso, que permanece controversa. A administração de antibióticos por nebulização permite atingir maior concentração local com nenhum ou poucos efeitos sistêmicos. As diferenças entre os antibióticos inalados e intravenosos estão resumidas na Tabela 2.

 

Tabela 2. Diferenças entre antibióticos endovenosos e inalatórios


Certamente haverá mais vantagens para um antibiótico que para sua eficácia depende da concentração em tecido pulmonar, como colistina ou aminoglicosídeos. Da mesma forma haverá mais desvantagem para antibióticos dependentes do tempo, como glicopeptídeos ou ß-lactâmicos, pois a inalação contínua leva a restrições específicas. Colistina e aminoglicosídeos são os antibióticos aerossolizados mais frequentemente em unidades de terapia intensiva. Assim, a prática atual ilustra que os antibióticos nebulizados atendem a uma necessidade real na prática clínica no contexto de propagação de bactérias MDR.

Iniciar a antibioticoterapia empírica inalatória em caso de suspeita de PAV e aguardar a identificação bacteriana e o teste de sensibilidade aos antibióticos para prosseguir com a terapia inalatória, intravenosa ou combinada seria uma opção interessante de avaliação. Seu impacto na emergência de resistência pode ser baixo, quando o tratamento empírico com carbapenêmicos ou piperacilina-tazobactam é uma das principais causas de emergência de cepas resistentes.

Antibióticos inalados podem ser uma opção de profilaxia de PAV. Seis estudos comparativos envolvendo um total de 1.158 pacientes foram incluídos em uma meta-análise em 2018. Antibióticos nebulizados profiláticos reduziram a ocorrência de PAV, mas não tiveram efeito significativo na mortalidade na unidade de terapia intensiva. Essa antibioticoterapia profilática não aumentou a ocorrência de PAV devido a bactérias MDR. Os antibióticos usados ​​nesses estudos foram colisitina, ceftazidima e gentamicina. Outro ensaio clínico controlado randomizado duplo-cego multicêntrico está em andamento fornecerá mais informações sobre a Amicacina inalada profilática (NCT03149640).

Os eventos adversos mais comumente relatados de antibióticos nebulizados são taquicardia, hiper ou hipotensão, hipoxemia e tosse. O broncoespasmo, geralmente considerado um efeito colateral comum da nebulização, não foi relatado com frequência num grande estudo observacional entre pacientes criticamente enfermos. A obstrução do circuito do ventilador ou dos filtros pode levar a complicações pouco frequentes, mas graves, como pneumotórax ou mesmo parada cardíaca. No entanto, é necessário um monitoramento cuidadoso durante a nebulização, especialmente se o processo for prolongado e/ou envolver a interrupção da umidificação do gás inalado.

Outra preocupação de segurança é a toxicidade pulmonar direta do antibiótico inalado, uma vez que a formulação do medicamento pode não ser projetada para esta via de administração. Excipientes validados para terapia inalatória estão listados aqui: (https://www.fda.gov/food/generally-recognized-safe-gras/gras-substances-scogs-database)

Antibióticos especialmente formulados para nebulização devem ser usados ​​preferencialmente. Quando não for possível usar formulações de medicamentos desenvolvidas especificamente para inalação, pode-se nebulizar medicamentos formulados para uso intravenoso, idealmente isentos de qualquer excipiente alergênico conhecido. Por exemplo, a inalação de amicacina livre de sulfito formulada para infusão intravenosa foi muito bem tolerada.

 

Revisão de Antoine Monsel e col.

Esta revisão traz ponderações sobre a penetração de antibióticos no tecido pulmonar. A penetração no tecido pulmonar é excelente para quinolonas, variável para β-lactâmicos e fraca para glicopeptídeos, aminoglicosídeos e polimixinas[36]. Assim, os aminoglicosídeos e a colistina (Polimixina E) são hoje os principais antibióticos cuja nebulização pode trazer benefícios clínicos, desde que sejam usados da forma correta e segura. Dados experimentais sugerem que tal benefício também poderia ser obtido com nebulização da vancomicina. A penetração limitada de antibióticos nebulizados no pulmão pneumônico consolidado e o possível longo atraso antes de atingirem os locais de infecção poderiam justificar a administração concomitante de antibióticos nebulizados e intravenosos na PAV, onde a consolidação “lobar” está frequentemente presente. Experimentalmente, o depósito alveolar de antibióticos nebulizados diminui com a obstrução dos bronquíolos distais por “plugues” purulentos, a gravidade histológica da pneumonia e a perda de aeração pulmonar. A perda de aeração pulmonar tem efeitos opostos, dependendo se os antibióticos são administrados por via intravenosa ou nebulizados: as concentrações nos tecidos aumentam no caso de administração intravenosa e diminuem após a nebulização. Muito provavelmente, o aumento da permeabilidade da membrana alvéolo-capilar na PAV promove a penetração intravenosa da amicacina no pulmão, enquanto os múltiplos “plugues” purulentos nos bronquíolos distais limitam seu depósito alveolar. No entanto, nas regiões pulmonares pneumônicas consolidadas, as concentrações de tecido pulmonar nebulizado com amicacina e colistina permanecem amplamente acima das concentrações inibitórias mínimas, levantando a questão de como os antibióticos nebulizados atingem o parênquima pulmonar infectado, apesar da falta de qualquer aeração pulmonar. Pseudocistos intraparenquimatosos e distensão bronquiolar frequentemente observados em áreas pulmonares consolidadas de animais ventilados (e pacientes) com PAV, provavelmente representam uma das rotas pelas quais os antibióticos nebulizados chegam às regiões pulmonares infectadas desprovidas de aeração alveolar. Além disso, existe uma contiguidade entre o compartimento brônquico e o intersticial. Qualquer consolidação é contígua aos brônquios, o que abre a porta para a nebulização de antibióticos. De acordo com esses dados experimentais, parece razoável promover a nebulização. A PAV com bacteremia secundaria causada por BGN-MDR é uma situação clínica em que a nebulização e a administração intravenosa devem ser combinadas. A difusão sistêmica de aminoglicosídeos nebulizados e da colisitina não atinge concentrações bactericidas sistêmicas.

Esta revisão também traz considerações acerca dos requisitos para o uso correto e seguro da inalatória com antibióticos que deveriam ser adotados por futuros estudos para avaliar a real eficácia desta via de tratamento.

Quanto à DOSE a ser administrada, aponta que em pacientes com fibrose cística com respiração espontânea, cerca de 70% dos antibióticos nebulizados atingem a árvore brônquica infectada. Em pacientes ventilados com PAV, menos de 40% atingem o parênquima pulmonar infectado. A impactação do aerossol nos circuitos do ventilador e nas paredes traqueobrônquicas explica o depósito limitado no tecido pulmonar. A retenção no nebulizador varia de 50%, com nebulizadores a jato, a menos de 5%, com nebulizadores de malha. Trocadores de calor e umidade reduzem significativamente a massa inalada, prendendo partículas aerossolizadas no filtro. Aquecer e umidificar o gás inspirado, aumenta o tamanho das partículas do aerossol e induz um efeito de chuva nos circuitos respiratórios e nas vias aéreas condutoras. O aerossol não umidificado aumenta sua distribuição de massa inalada e o depósito pulmonar. Na PAV, a nebulização seca aumentou os níveis de gentamicina, amicacina ou vancomicina na expectoração em 3,63 em comparação com a nebulização umidificada. Com a nebulização a seco e ajustes de ventilação otimizados, o depósito no circuito e nos brônquios atingem uma média de 30 e 35%, respectivamente (Fig.2).

 

Fig 2. Depósito extrapulmonar e pulmonar de antibióticos nebulizados (figura inclusa na revisão).

 

Experimentos em animais usando fibrobroncoscopia tem demonstrado que durante a terapia inalatória existe uma importante contaminação do tecido epitelial brônquico, que faz com que a concentração no tecido intersticial pulmonar se reduza de forma significativa. Desta forma, para quantificar as concentrações do tecido pulmonar e a “contaminação brônquica” ao longo do tempo, experimentos futuros devem comparar as concentrações brônquicas, usando lavado broncoalveolar e as concentrações intersticiais pulmonares usando microdiálise, após uma única nebulização de uma dose elevada de antibiótico (aminoglicosídeo ou colisitina) nebulizado. As concentrações de antibiótico inalado medidas no epitélio brônquico (aferidas por lavado brônquico) superestimam as concentrações no tecido pulmonar. A toxicidade local e geral de aminoglicosídeos e da colisitina usados pela via inalatória, depende da dose nebulizada e da difusão sistêmica do sistema respiratório. Enquanto a difusão sistêmica de aminoglicosídeos nebulizados é limitada no pulmão saudável, ela aumenta acentuadamente quando a membrana alvéolo-capilar é rompida pelo processo inflamatório. Em animais com pneumonia de inoculação, as concentrações séricas mínimas de amicacina não são diferentes entre nebulização e administração intravenosa quando a dose nebulizada é igual à dose intravenosa aumentada pela quantidade depositada no tecido extrapulmonar (câmara do nebulizador + circuito inspiratório + tubo endotraqueal + circuito expiratório). Como consequência, o risco de toxicidade da amicacina não é reduzido com a nebulização.

Portanto, em TERAPIA INALATÓRIA DE SUBSTITUIÇÃO (somente nebulização), uma sugestão para a dosagem seria fornecer como DOSE DE NEBULIZAÇÃO = dose intravenosa + dose de deposição extrapulmonar. Portanto, doses elevadas de amicacina devem ser administradas, totalizando 40 mg/kg/dia. Como os aminoglicosídeos são antibióticos dependentes da concentração com um efeito pós-antibiótico, uma única nebulização por dia pode ser preferida. Em contraste, a difusão sistêmica da colisitina nebulizada é baixa, mesmo na presença de pneumonia por inoculação extensa ou PAV. Como consequência, se justificaria uma dosagem diferente, principalmente determinada pela tolerância brônquica do aerossol. Como a colistina nebulizada tem uma boa tolerabilidade traqueobrônquica, as doses podem ser aumentadas muito acima da dose intravenosa aumentada pela deposição extrapulmonar. Para aumentar a atividade bactericida (colistina é um antibiótico dependente da concentração), até 5 milhões de unidades internacionais (UI) podem ser nebulizadas a cada 8 horas e em comparação com 3 milhões de UI administradas por via intravenosa a cada 8 horas.

Como TERAPIA INALATÓRIA ADJUVANTE (dose inalatória + intravenosa), os estudos ainda são limitados. Para os aminoglicosídeos, a terapia adjuvante aumenta as concentrações plasmáticas mínimas (MIC) e no tecido pulmonar. Portanto, o risco de toxicidade provavelmente aumenta. Para colistina, a terapia adjuvante aumenta no tecido pulmonar, mas não as concentrações plasmáticas. Portanto, é provável que melhore a eficácia com um risco semelhante de toxicidade. Em contraste, a terapia de substituição (só nebulização) reduz marcadamente as concentrações plasmáticas de colistina e diminui o risco de toxicidade, conforme mostrado em uma meta-análise. Portanto, a Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas recomendou comparar a terapia inalatória de substituição em vez da terapia inalatória adjuvante, com a administração intravenosa em futuros ensaios clínicos. (Fig.3).

 

Fig.3 Leitões ventilados com pneumonia por inoculação e pacientes com pneumonia associada à ventilação mecânica recebem a mesma dose de aminoglicosídeo na ponta distal do tubo endotraqueal (seta azul escuro, nebulização) e na artéria pulmonar (seta azul claro, administração intravenosa). A dose inserida na câmara do nebulizador é igual à dose intravenosa e deposição extrapulmonar. A deposição extrapulmonar pode ser medida lavando os circuitos inspiratórios e expiratórios e o tubo endotraqueal por um volume conhecido de solução salina e medindo a concentração média de amicacina no líquido coletado (imagem do artigo de revisão)


No tocante à TECNICA DA TERAPIA INALATÓRIA, aponta que para otimizar o depósito pulmonar em pacientes ventilados, uma nebulização contínua (em vez de acionada pela respiração) deve ser fornecida usando nebulizadores de malha juntamente com configurações específicas do ventilador visando reduzir a velocidade do fluxo e impactação inercial das partículas aerossolizadas. Os nebulizadores de malha sincronizados com a inspiração, são dispositivos acionados por software que monitoram o fluxo inspiratório, a frequência respiratória e o tempo inspiratório. Eles aumentam a massa respirável, mas aumentam significativamente o tempo de nebulização, restringindo a geração de aerossol à fase inspiratória. Com nebulizadores projetados para sincronizar a geração de aerossol até os primeiros 75% da fase inspiratória, o tempo de nebulização por minuto é independente da frequência respiratória e pode ser calculado da seguinte forma: comparado com um nebulizador de malha contínua, um nebulizador de malha sincronizado com a inspiração estende o tempo de nebulização em três a nove vezes. A nebulização de amicacina 25 mg/kg leva 30-45 minutos usando nebulizadores de malha contínuos (não sincronizados com a inspiração), enquanto a nebulização de 12 mg/kg leva 60 minutos usando nebulizadores de malha sincronizados com inspiração. Como consequência, a nebulização de amicacina com 40mg/kg/dia (dose recomendada para PAV por BGN-MDR), resultaria inviável usando nebulizadores de malha sincronizados com a inspiração, pois exigiria duas nebulizações de por dia de mais de 2 horas cada. Os nebulizadores de malha contínuos geram o aerossol de antibiótico ao longo do ciclo respiratório. Durante a expiração, o aerossol se acumula no ramo inspiratório e é impelido para as vias aéreas durante a próxima inspiração (“efeito bolus”). O “efeito bolus” contribui para o fornecimento de aerossol altamente concentrado à árvore traqueobrônquica e ao pulmão distal e justifica o uso de nebulizadores de malha contínua na PAV. Reduzir a velocidade do fluxo inspiratório reduz a impactação inercial do aerossol nas vias aéreas e otimiza o depósito pulmonar. Para atingir esse objetivo, é recomendado uso de tubos de forma e superfície interna especificamente projetados, e selecionar configurações específicas do ventilador durante a nebulização: ventilação controlada a volume (VCV) com fluxo inspiratório constante (onda de fluxo quadrada), relação I:E de 1:1, frequência respiratória (FR) de 12-15 bpm, volume corrente (VC) de 8 ml/kg e ausência ou fluxo mínimo de polarização (2L/min). Em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo, essas configurações do ventilador geram assincronias que devem ser controladas aumentando o nível de sedação transitoriamente. Uma pausa inspiratória final de platô de 20% deve ser definida para promover a deposição de aerossol nas paredes alveolares. A VM e PSV deve ser desencorajada porque a desaceleração do fluxo inspiratório produz turbulências. O trocador de calor e umidade deve ser removido e os umidificadores aquecidos parados para evitar o crescimento higroscópico das partículas aerossolizadas e um efeito de chuva no tubo endotraqueal e nas vias aéreas. Para evitar o desperdício de aerossol no ramo expiratório, o nebulizador deve ser posicionado 15 cm antes da peça em Y, no ramo inspiratório. Estudos in vitro e in vivo sugerem a superioridade dos nebulizadores de malha sobre os nebulizadores a jato para nebulizar antibióticos e broncodilatadores. Com ambos os tipos, os diâmetros aerodinâmicos medianos de massa permanecem abaixo de 5 µm, limite acima do qual a maioria das partículas aerossolizadas não pode atingir o pulmão. Imagens de fluorescência pulmonar e estudos cintilográficos, demonstram que os nebulizadores de malha fornecem uma massa inalada respirável maior do que os nebulizadores a jato. Outra vantagem é um volume residual muito menor (46% com nebulizadores de jato versus 4% com nebulizadores de tela) que permite a administração de altas doses em um menor período de tempo. Além disso, não há interferência com o gás inalado fornecido pelo ventilador. Em camundongos anestesiados com respiração espontânea que inalaram salbutamol em uma câmara de exposição, as concentrações de tecido post mortem e séricas foram 60% maiores com nebulizadores de malha em comparação com nebulizadores a jato, enquanto o volume residual foi significativamente reduzido. Em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica moderada a grave em ventilação não invasiva, os nebulizadores de malha depositaram mais de três vezes mais radioaerossol nos pulmões do que os nebulizadores de jato. As vantagens técnicas dos nebulizadores de malha podem afetar o resultado. Em uma série de 1.594 pacientes com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica admitidos em um pronto-socorro dos EUA e tratados com broncodilatadores, o uso de nebulizadores de malha foi associado a menos admissões no hospital, menor tempo de permanência na emergência departamento e uma redução na dose de albuterol. Uma nota de cautela, no entanto, deve ser adicionada em relação à viabilidade da tecnologia de malha vibratória. Uma taxa inesperada de 30% de interrupção prematura da produção de aerossol foi relatada. A falha foi associada a uma ampla faixa de volume residual com média de 21,3% da carga em comparação com 1,5% da carga quando a nebulização foi bem-sucedida. Em contraste, os nebulizadores a jato mais antigos demonstraram ser confiáveis ​​com o uso repetido.

Finalmente, tecem suas considerações sobre as razões pelas quais os ensaios multicêntricos IASIS e INHALE falharam, já apresentadas em outras revisões por outros autores. Primeiro, incluíram pacientes com PAV causada por BGN multisensiveis. Segundo, usaram terapia adjuvante combinando dois e até três antibióticos para tratar PAV sem choque e/ou não causada por BGN multirresistente. Terceiro, usaram nebulizadores com malha sincronizados com a inspiração, gerando a administração de baixas doses de amicacina. Quarto, houve falta de otimização da ventilação mecânica durante a fase de nebulização. Quinto, usaram doses baixa de amicacina nebulizada calculada com base em altas concentrações no liquido epitelial brônquico, superestimando as concentrações no tecido pulmonar, gerando na verdade, concentrações pulmonares efetivas sub otimizadas.

Futuros ensaios clínicos devem comparar a nebulização de amicacina e colistina com a administração parenteral de novas cefalosporinas/inibidores de β-lactamase em pacientes com PAV ou TAV causado por BGN-MDR. Ceftazidima-avibactam e ceftolozane-tazobactam são ativos contra as enterobacteriais, pseudomonas aeruginosa e klebsiella pneumoniae produtoras de carbapenemase e oxacilinase; e cefiderocol ou eravaciclina são ativos contra acinetobacter baumanni resistente a carbapenemicos. Se o BGN-MDR permanecer suscetível aos aminoglicosídeos, a amicacina nebulizada deve ser comparada com a cefalosporinas/inibidores de β-lactamase intravenosa. Se o BGN-MDR for resistente aos aminoglicosídeos, a colisitina nebulizada deve ser comparado com a cefalosporinas/inibidores de β-lactamase intravenosa. Na PAV causada por BGN pandorga resistente documentada, colisitina nebulizada deve ser comparado com colisitina intravenosa (terapia de substituição). Os benefícios que podem ser esperados são uma cura clínica mais rápida, uma redução da duração da ventilação mecânica, uma redução da toxicidade renal em caso de terapia de substituição com colisitina e uma duração mais curta da administração de antibióticos. Devido a que que o depósito pulmonar de amicacina nebulizada diminui com a aeração pulmonar nas formas graves de pneumonia, futuros ensaios clínicos devem incluir pacientes em um estágio inicial de PAV, que geralmente é precedido por TAV. Para projetar ensaios futuros, os pesquisadores devem ter em mente que a Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos e a FDA aprovam medicamentos para novas indicações com base na não inferioridade e na ausência de eventos adversos.

 

CONCLUSÃO

A análise dos guidelines em vigor e da literatura mais atualizada, muito embora ainda controversa pela existência de estudos positivos e negativos, favorece o uso da terapia antibiótica inalatória como uma opção adjuvante de resgate associada a antibiótico endovenoso, no atual cenário de excepcionalidade gerada pela pandemia e diante da falta de antibióticos disponíveis no mercado para uso endovenoso.

Nestes momentos de pandemia em que observamos um crescente número de casos de PAV por germes gram-negativos multirresistentes complicando os quadros de pneumonia viral por SARS-CoV-2, levando a um maior consumo de antibióticos de amplo espectro e consequentemente a um desabastecimento, se faz relevante pensar no uso da terapia inalatória de antibióticos associada ao uso endovenoso.

Para tanto, deve se prestar atenção a detalhes que otimizem seu potencial de eficácia, como seleção do tipo de nebulizador, da dose apropriada, tempo de nebulização e ajustes nas configurações do ventilador quando for usar em paciente sob ventilação mecânica.


PROTOCOLO PARA AMICACINA EM TERAPIA COMBINADA EV + INALATÓRIA (conforme protocolo de Hasan NA et.al.)[37]

1. Dose e preparação:

1.1 EV: 20 mg/kg de amicacina/dia diluída em 100mL de solução salina 0,9% normal (SF) infundida durante 1 hora (ajustar diariamente com base na CrCl estimada).

1.2 Inalatória: 400mg 12/12h. Misturar 3mL de SF com os 2mL do frasco de amicacina (500mg), perfazendo mistura total de 5ml (100mg/ml). Retirar 4mL e adicionar ao copo nebulizador + 6mL de SF 0.9%.

2. Nebulizador: preferência pelo nebulizador ultrassônico. Na ausência, nebulizador pneumático.

3. Retirar filtro trocador de calor e umidade durante a nebulização

4. Posicionar o nebulizador no ramo inspiratório 15 a 40 cm antes da peça em Y

5. Em paciente sob ventilação mecânica, durante a nebulização ajustar, se possível, fluxo inspiratório de até 30L/min e aumentar o tempo inspiratório.



[1] https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/covid-ram-parte1/

[2] https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/covid-ram-parte2/

[3]http://antigo.anvisa.gov.br/en_US/informacoes-tecnicas13/-/asset_publisher/WvKKx2fhdjM2/document/id/3171889?redirect=%2Fen_US%2Fservicos-de-saude-antigo

[4] ALERTA DE RISCO GVIMS/GGTES/ANVISA Nº 01/2020: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/comunicados-de-risco-1/alerta-01-2020-candida-auris-07-12-2020.pdf/view

[5] NOTA TÉCNICA GVIMS/GGTES/ANVISA Nº 04/202: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/nota-tecnica-gvims_ggtes_anvisa-04_2020-25-02-para-o-site.pdf/view

[6] https://www.bbc.com/portuguese/geral-54532598

[7] https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/05/30/escassez-global-de-novos-antibioticos-agrava-a-ameaca-das-superbacterias.htm

[8] https://correiodoestado.com.br/cidades/hospitais-entram-em-colapso-governo-fala-em-mais-restricoes/383246

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[35]Maxime Desgrouas, Stephan Ehrmann. nhaled antibiotics during mechanical ventilation—why it will workAnnals of Translational Medicine. Vol 9, No 7 (April 2021)

[36] Rodvold KA, George JM, Yoo L. Penetration of antiinfective agents into pulmonary epithelial lining fluid: focus on antibacterial agents. Clin Pharmacokinet 2011; 50:637-664.

[37] Hassan NA, Awdallah FF, Abbassi MM, et al. Nebulized versus IV amikacin as adjunctive antibiotic for hospital and ventilator-acquired pneumonia postcardiac surgeries: a randomized controlled trial. Crit Care Med 2018; 46:45–52


sábado, 5 de junho de 2021


USO DA T.G.I. NO MANEJO DA HIPERCAPNIA REFRATÁRIA:

MUITO CUIDADO COM AS “GAMBIARRAS”.

 

Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico Responsável Técnico e Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos. Coordenador da Residência em Medicina Intensiva – COREME e membro do Grupo Técnico de Enfrentamento à COVID -19 da Santa Casa de São Jose dos Campos.




A HIPERCAPNIA é uma complicação que costuma ocorrer no manejo de pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), nos quais se utiliza uma estratégia de ventilação mecânica protetora. A hipercapnia quando severa pode ter consequências potencialmente deletérias para o paciente[1].  As consequências da retenção aguda do CO2 estão relacionadas ao pH intracelular, podendo resultar em disfunções do sistema nervoso central (SNC), hipertensão intracraniana (HIC), fraqueza neuromuscular, alterações cardiovasculares e respiratórias, entre outras. Portanto, a hipercapnia é responsável por danos orgânicos complicados, os quais podem representar um elevado risco em alguns contextos clínicos específicos dos pacientes. Sua ocorrência tem sido bastante comum durante a pandemia da COVID-19, como consequência da estratégia ventilatória que usa VC baixo (redução da ventilação alveolar) e da própria lesão pulmonar que aumenta significativamente o espaço morto. Ambos fatores resultam em uma eliminação ineficaz do CO2 sanguíneo e consequentemente em hipercapnia. Diante da elevação dos valores de PaCO2 e, para manter a ventilação mecânica protetora, se faz uso de estratégias que tentam reduzir a hipercapnia, como o aumento da frequência respiratória (para aumentar o volume minuto) e a redução do tempo inspiratório (para aumentar o tempo expiratório). A hipercapnia permissiva é outra estratégia na qual que se toleram níveis de elevados de PaCO2 desde que não exista ou consiga se compensar a acidose respiratória grave eventualmente ocasionada. Pode se tolerar PaCO2 entre 60 mmHg e 100 mmHg com pH >7,2). Em casos refratários e/ou com acidose respiratória persistente (hipercapnia refratária) e, em centros com experiencia, podem se usar de métodos avançados como a troca de gases extracorpórea (TGEC) através de assistência pulmonar intervencionista (ILA) arteriovenosa (A-V) nos casos sem instabilidade hemodinâmica ou através da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) quando além da remoção de CO2 se busque também tratar a hipoxemia refratária[2].

Entretanto, a maioria das UTIs brasileiras não contam com os métodos avançados e, portanto, se vem diante de um esgotamento precoce de opções de manejo.


A TGI COMO OPÇÃO DE RESGATE

A injeção traqueal de gás ou TGI (derivado do termo tracheal gas insufflation) tem sido usada em alguns centros como uma estratégia de resgate ou de “última opção” nos cenários onde não há métodos avançados.

A TGI consiste na insuflação de gás fresco (com oxigênio em diferentes concentrações) através das vias aéreas para aumentar a eficiência da ventilação alveolar e aumentar a eliminação de CO2. A ventilação alveolar minuto (VA) equivale à diferença entre o volume corrente (VC) e o volume do espaço morto (VEM) vezes a frequência respiratória.  Durante a expiração parte do ar exalado (com alta concentração de CO2) permanece ocupando o espaço morto (vias aéreas e tubo endotraqueal), de forma que na inspiração seguinte, este ar será o primeiro a ingressar na zona respiratória das vias aéreas, principalmente constituída pelos alvéolos respiratórios. Assim, quanto maior o espaço morto (como acontece na SARA grave) maior a quantidade de CO2 que retornará aos alvéolos durante a inspiração. Isso aumentará a concentração de CO2 alveolar durante a inspiração e, portanto, a pressão alveolar de CO2 (PACO2). Este aumento reduzirá o gradiente de CO2 do capilar pulmonar para o alvéolo (Gc-ACO2) representando pela diferença entre a pressão capilar e alveolar de CO2 (PaCO2 – PaCO2), pelo que o CO2 sanguíneo terá sua eliminação diminuída, levando a hipercapnia (aumento da PaCO2).

 

MECANISMOS DE AÇÃO DA TGI

Existem dois mecanismos principais responsáveis pela redução do CO2 durante a aplicação da TGI: o proximal, no qual o gás fresco é introduzido próximo à carina, diluindo o CO2 contido no espaço morto proximal à extremidade do cateter no final da expiração; e o distal, no qual a turbulência gerada pelo jato na extremidade do cateter pode elevar a mistura gasosa em regiões distais à extremidade distal do cateter, aumentando ainda mais a eliminação de CO2. Ambos mecanismos provocam a diminuição do espaço morto através do seu preenchimento com fluxo turbulento de gás fresco na traqueia durante o ciclo ventilatório, promovendo uma “lavagem do CO2” do espaço morto, para reduzir a PACO2 e melhora o Gc-ACo2 (Fig. 1).

                            

 

Fig.1 Á esquerda, sem insuflação de gás traqueal (TGI), o centro as vias aéreas contêm CO2 na expiração final e este CO2 é entregue ao os alvéolos durante a inspiração subsequente. À direita, com TGI (direita), o CO2 das vias aéreas centrais é liberado durante a fase expiratória, que reduz o CO2 entregue aos alvéolos durante a inspiração. Dean R. Hess, et.al. Respiratory care. February 2001 vol. 46 Nº 2

 

TÉCNICA “IDEAL” E “ADAPTADA” DE REALIZAR TGI

A técnica é idealmente realizada através de cânula orotraqueal já projetadas para TGI disponíveis apenas para pesquisas (Fig.2).

 

Fig.2. Cânula endotraqueal multicanal de Vygon com sistema para TGI com via de acesso do gás de insuflação e mais duas vias com hubs. Os círculos abertos marcados com setas representam canais isolados e os seis restantes representam os lúmens distais para a eliminação do espaço morto do TGI. Pediatric Pulmonology 38:386–395 (2004).

 

Na prática clínica, até um tempo atrás se dispunha de cateteres de TGI específicos que se introduziam no interior do tubo orotraqueal (TOT), através de conectores também específicos que encaixavam perfeitamente na entrada do TOT (Fig.3). Hoje não se encontram mais disponíveis.

 


Fig.3. Representação do Cateter para TGI (seta horizontal) inserido na Cânula Traqueal por Meio do Conector de Cânula (seta vertical). Ortiz. A. C. Revista Brasileira de Anestesiologia Vol. 58, No 5, Setembro-Outubro, 2008

 

Hoje em dia, devido à falta de cateteres próprios, se usam “adaptações” (popularmente conhecidas como “gambiarras”) para implementar sistemas de fornecimento de gás fresco como TGI. Como cateteres de TGI adaptados se usam sondas de aspiração traqueal convencional ou do próprio sistema de trachcare, sondas nasogástricas ou uretrais. Um dos sistemas mais utilizados usa o conector em “T” do trachcare (de aspiração continua fechada) desconectando-se o sistema de sucção (sonda + involucro estéril). Através do conector de introduz o cateter adaptado. Um dos problemas frequentes nestas adaptações é o encaixe das peças adaptadas pelo que via de regra deve se improvisar a vedação da conexão com esparadrapo, tendo ainda que cortar as cânulas para que seu comprimento fique a 1cm da carina (ver vídeos no final do post). O cateter então será conectado ao fluxômetro de oxigeno através de um cabo de conexão convencional o que levará a fornecimento de um fluxo de gás com oxigênio puro (FiO2 de 100%) o que eventualmente poderá alterar a FiO2 efetiva entregue ao paciente; ou através de um conector em “Y” (polifix) com uma das vias conectada ao fluxômetro de oxigênio (O2) enquanto a outra será conectada ao fluxômetro de ar comprimido (AC) para desta forma proporcionar um gás com uma concentração diferente de oxigênio. Neste último caso, a mistura resultante de gás (O2 puro + ar comprimido) terá uma FiO2 que poderá ser estimada através da formula:

 

FiO2 = Fluxo O2 (L/min) x 100 + Fluxo de AC (L/min) x 21

Total de L/min

 

Exemplos: 


Da mesma forma, estando o paciente ventilado em VCV controlada, com onda de fluxo quadrada (constante) sabendo-se o valor do VC entregue pelo respirador, pode se estimar o volume de ar adicional injetado pela TGI conhecendo o fluxo total (L/min) do ar injetado e o tempo inspiratório (segundos). Entretanto, o respirador fará uma sobrestimação do volume expirado já que em razão de ser TGI continua haverá a leitura de fluxo tanto na fase inspiratória quanto expiratória.

A extremidade do cateter deve ficar posicionada o mais próximo da carina, usualmente a 1 cm (maior lavagem do CO2 do espaço morto), permitindo um fluxo de gás fresco entre 1 a 5 L/min. A técnica pode ser realizada em pacientes ventilados em modo ventilatório com pressão controlada (PCV) ou ventilação de volume controlado (VCV)[3] [4] [5] [6] [7]. As formas de aplicação da TGI podem ser classificadas em contínua (o fluxo é liberado em ambas fases do ciclo ventilatório), ou fásica, isto é, durante a fase de inspiração ou de expiração (parcial ou total) o que pressupõe que os respiradores que permitem realizar TGI permitam também a escolha do tipo de TGI e ainda regular o fluxo. O diâmetro do cateter não influencia a eficácia da TGI em reduzir o CO2, não interferindo e não promovendo alterações significativas no volume corrente e nas variáveis de pressão. A partir desse princípio, tem-se preconizado a utilização de cateteres com diâmetro interno variando entre 1,1 e 3 mm para a aplicação do método. O fluxo pode ser utilizado no máximo até 15 L/min, sendo os valores de referência de 2 a 15 L/min[8] [9], mas na prática usa-se como limite 10 L/min. Para manter pressões inspiratórias e expiratórias constantes, idealmente o respirador deve permitir que a válvula de exalação permaneça aberta durante a fase de inspiração, para compensar o fluxo adicional fornecido pela TGI[10] [11] [12]. Quando se usam adaptações, o fluxo será sempre contínuo e os respiradores não havendo a compensação pela válvula expiratória durante a inspiração.

A TGI teve seu auge nos anos 90, com base em estudos feitos principalmente em animais de experimentação, mostrando maiores benefícios nos casos de hipercapnias graves[13] [14] [15] [16] [17] [18] [19]. Entretanto, nos anos seguintes não houve desenvolvimento de pesquisas consistentes e principalmente realizadas em seres humanos, o que fragiliza sua sustentação e segurança para seu uso na prática clínica.

Em 2004, uma revisão Cochrane avaliou o uso da TGI em recém nascidos encontrando apenas um pequeno estudo randomizado e controlado mostrando redução na duração da em VM[20].

Em 2013, nossas Diretrizes Brasileira de Ventilação Mecânica com base nos estudos de Hoffman (2000) e Kallet 2013)[21] [22], forneceram as seguintes orientações a respeito da TGI:

A TGI visa retirar o CO2 do gás do espaço morto anatômico, diminuindo a hipercapnia para PaCO2 < 80 mmHg. É um recurso que pode ser usado em situações de Pplatô > 30 cm H2O com VC baixos e PaCO2 > 80 mmHg.

Indicação (sugestão): Em pacientes onde a f, C e as pressões em vias aéreas estão no limite de proteção e segurança do aparelho respiratório, mas com a PaCO2 > 80 mmHg e/ou pH < 7.2.

Técnicas e cuidados (recomendação):

  • Usar ETCO2;
  • O TGI terá maior eficácia em pacientes com ETCO2 alto e próximo ao PaCO2 arterial;
  • Usar conector de broncoscopia para cânula traqueal e sonda fina (6 Fr) através do conector;
  • Deixar a ponta do cateter 2 – 3 cm acima da carina e abaixo da extremidade distal da prótese ventilatória (medir em tubo traqueal fora da traqueia);
  • Usar fluxo na TGI para que a linha de “platô” (agora descendente) do CO2 expirado chegue próximo ou toque a linha do zero;
  • Evitar fluxos maiores que 10 L/min;
  • Realizar a TGI no modo PCV;
  • Os volumes medidos pelo ventilador serão inacurados;
  • A pressão de platô não poderá ser medida de forma acurada durante a TGI.

 

Em 2018, Renata Monteiro Weigert e col., publicaram uma revisão sistemática sobre o uso da TGI como recurso terapêutico em ventilação mecânica invasiva. A pesquisa foi iniciada em 2 de julho de 2016 e concluída em 31 agosto de 2016. Foram incluídas publicações restritas ao período de 1 de janeiro de 2005 a 31 de julho de 2016. Foram identificados 1.437 artigos nas bases de dados. Destes, após eliminar as duplicatas, restaram 1.388 artigos, sendo 1.166 excluídos por terem sido publicados fora do período de 12 anos estipulado para essa revisão. Do restante, 30 artigos foram excluídos por não estarem disponíveis gratuitamente online, 178 foram excluídos após a leitura do título e resumo e quatro foram excluídos por não atenderem aos demais critérios de inclusão. Não houve distinção quanto ao número de artigos selecionados, e 10 artigos foram incluídos na revisão. A maioria dos 10 estudos foram realizados com amostra experimental (coelhos e cães). Apenas quatro estudos investigaram seres humanos, com amostra de pacientes com lesão pulmonar grave e/ou SDRA. Esses estudos abordavam a eficácia do método de TGI utilizado na redução dos níveis de CO2 e as condições para a diminuição dos parâmetros da VMI e melhora da mecânica ventilatória. Os estudos abordavam a TGI em comparação com outras técnicas, os efeitos da TGI em pacientes com lesão pulmonar e a efetividade da técnica para a redução de pressões e volumes na VMI. Nenhum estudo foi excluído desta revisão baseado no risco de viés avaliado. Os autores concluem que a TGI pode ser usada como recurso terapêutico na hipercapnia permissiva e para melhorar a mecânica ventilatória em pacientes com lesão pulmonar, mas os estudos que abordam a eficácia da TGI são controversos e por sua heterogeneidade comprometem uma análise adequada, nãos sendo ainda possível determinar qual modo de aplicação da técnica favorece o melhor tratamento. Ainda ponderam que os artigos pesquisados não fornecem um protocolo claro e seguro para que a TGI seja utilizada com completa segurança, sugerindo que novas pesquisas explorem essa técnica, auxiliando seu desenvolvimento e buscando uma melhor compreensão dos seus benefícios, para possibilitar sua adoção rotineira nas UTIs[23].

No mesmo ano de 2018, Juliane Regina Lucindo Euzébio e col., publicam uma revisão narrativa-qualitativa, composta por análise da literatura publicada em livros, artigos de revistas eletrônicas interpretados entre 1990 até essa data com análise crítica pessoal dos autores. Destacam que apesar dos estudos apontarem resultados satisfatórios em relação à redução e/ou estabilização da PaCO2, a ausência de um protocolo seguro facilita a contradição em relação da aplicação em unidades de terapia intensiva, sugerindo também a necessidade de novos estudos[24].

Também um estudo de 2018 em pacientes traqueostomizados, a TGI não mostrou diferença significativa na redução da PaCO2 em pacientes em ventilação espontânea[25], achado que anteriormente já tinha também sido encontrado para pacientes traqueostomizados hipercapnicos com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)[26].

 

DESVANTAGENS E PROBLEMAS COM O USO DA TGI

Quando se usa TGI tipo continua, haverá uma entrega de fluxo adicional que se somará ao volume de ar fornecido pelo ventilador. Isso certamente poderá acarretar aumento do VC e hiperinsuflação alveolar. Isto porque poucos são os respiradores que permitem manter a válvula expiratória ativa durante a inspiração, ou permitem realizar apenas TGI fásica expiratória com possibilidade de regular o fluxo injetado.

Na prática a TGI é realizada usando as denominadas “adaptações” anteriormente descritas (“gambiarras”) o que certamente é feito através de fluxo contínuo. Para estimar o volume adicionado pela TGI, como descrito acima, deve se ajustar a ventilação em VCV com onda de fluxo quadrada. Assim aumentos de VC poderão levar, além de hiperinsuflação, a aumento da pressão da via aérea (tanto dinâmica quanto estática). Desta forma além de se perder a estratégia protetora, também se perderá a aferição de valores fidedignos da mecânica respiratória, com risco de geração de volutrauma e barotrauma. Na fase expiratória, o fluxo da TGI poderá levar a aumento da resistência da via aérea e à geração de PEEP intrínseca. O gás injetado poderá estar insuficientemente umidificado o que aumentará o espessamento das secreções e poderá aumento o risco de lesão a mucosa da via aérea. Ainda, o fluxo poderá influenciar nos mecanismos de disparo, especialmente quando o escolhido for a fluxo. Ouro problema gerado é a alteração que poderá haver na entrega da FiO2 efetiva quando se insufle oxigênio puro aumentando o risco de lesão pulmonar induzida pelo oxigênio. Também a leitura da ETCO2 pela capnometria durante a realização da TGI contínua poderá não refletir adequadamente o valor da PaCO2.


CONCLUSÃO

Apesar de estudos antigos feitos em animais de experimentação terem demostrado um efeito benéfico na redução da hipercapnia, a ausência de estudos controlados e randomizados em seres humanos não fornece um nível de evidencia suficientemente seguro para o uso da TGI em pacientes com hipercapnia refratária decorrente do uso de estratégia protetora em pacientes com SDRA grave submetido a ventilação mecânica invasiva. Menos ainda existem estudos que comprovem redução de mortalidade.

A prática clínica hoje se dá através do uso da TGI de tipo contínuo (com fornecimento de fluxo adicional tanto na fase inspiratória quanto na fase expiratória) através de sistemas de fornecimento de fluxo montados com base em adaptações (“gambiarras”) usadas em respiradores que geralmente não permitem manter válvula expiratória ativa durante a expiração.

A injeção de gás durante a fase inspiratória adicionado ao VC entregue pelo respirador provocará hiperinsuflação (volutrauma) assim como barotrauma representando um risco que pode superar eventual benefício. Mesmo que ventilando em VCV com onda de fluxo constante (quadrada) consiga-se reduzir do VC o volume estimado adicional fornecido pela TGI, visando reduzir o risco de volutrauma/barotrauma, durante a pausa inspiratória mesmo que se interrompa o fluxo entregue pelo respirador, o fluxo da TGI continuará sendo fornecido, aumentando a pressão de pico (Ppi), pressão de platô (Pplat) e a driving pressure (DP) prejudicando a estratégia protetora e a monitorização da mecânica respiratória.

A injeção de gás durante a fase expiratória poderá gerar problemas de autoPEEP, aumentando a pressão de platô, assim como poderá provocar assincronias de fluxo. Ainda o volume expirado aumentará seu valor, podendo mascarar eventuais vazamentos de ar.

A FiO2 entregue ao paciente com um sistema adaptado de TGI que inclua o fornecimento de fluxo de O2 puro (FiO2 de 100%) pode restar excessiva e difícil de ser estimada, podendo acarretar risco de lesão pulmonar induzida pelo oxigênio.

Ainda, caso se use como sistema adaptado de TGI o próprio sistema de trachcare, o paciente ficará sem sistema de aspiração fechada podendo trazer riscos gerados pela hipersecreção brônquica. Nestes casos, em se tratando de pacientes com COVID-19 haverá necessidade de aspirar secreções pelo sistema aberto gerando risco de aerosolização e de maior contaminação.

Pelas razões anteriormente expostas, o uso da TGI sem um protocolo devidamente elaborado e aprovado pela instituição dever ser evitado. O protocolo institucional, quando elaborado, deverá estabelecer uma técnica segura, que minimize os riscos provocados pelo uso de “adaptações” e deverá estabelecer formas de poder monitorizar parâmetros de mecânica respiratória intermitente.

Mesmo com um protocolo elaborado e aprovado, em razão da falta de evidencias consistentes, a TGI deverá ser usada como estratégia de resgate, restrita a situações de hipercapnia severa (PaCO2>100mmHg) com acidose refratária e/ou persistente (pH≤ 7.2) em lugares nos quais o risco  pela acidose supere os riscos da própria TGI, tendo se esgotado todas as formas de manejo convencional e não exista possibilidade de providenciar o manejo através de assistência pulmonar intervencionista (ILA) arteriovenosa (A-V) nos casos sem instabilidade hemodinâmica ou através da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO).

 

VIDEOS EDUCATIVOS:

 

1. https://www.youtube.com/watch?v=cMw2YrOngqU

2. https://www.youtube.com/watch?v=xETe3E8eSd4

3.  https://www.youtube.com/watch?v=opc458zkF-g

 



[1] Repessé X, Vieillard-Baron A. Hipercapnia na síndrome do desconforto respiratório agudo: a árvore que esconde a floresta! J Thorac Dis. Junho de 2017; 9 (6): 1420-1425. doi: 10.21037 / jtd.2017.05.69. PMID: 28740647; PMCID: PMC5506150.

[2] DIRETRIZES BRASILEIRAS DE Ventilação Mecânica – 2013

[3] Salgado A, Cardoso BB, Mello MP, Eigenheer JF, Presto BL, Presto L, et al. Insuflação traqueal de gás

como terapia alternativa a hipercapnia em pacientes com SARA. Revista Neurociências. 2010;18(3):3659.

[4] Hoffman LA, Tasota FJ, Delgado E, Zullo TG, Pinsky MR. Effect of tracheal gas insufflation during weaning from prolonged mechanical ventilation: a preliminary study. Am J Crit Care. 2003;12(1):31-9. PMid:12526235.

[5] Epstein SK. TGIF: tracheal gas insufflation: for whom? Chest. 2002;122(5):1515-7. http://dx.doi. org/10.1378/chest.

[6] Imanaka H, Kirmse M, Mang H, Hess D, Kacmarek RM. Expiratory phase tracheal gas insufflation and pressure control in sheep with permissive hypercapnia. Am J Respir Crit Care Med. 1999;159(1):49-54. http://dx.doi. org/10.1164/ajrccm.159.1.9801087. PMid:9872817.

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[9] Sala AD, Auler Jr JOC. Insuflação traqueal de gás. Rev Bras Ter Intensiva. 2004;16(3):197-201.

[10] Carter CS, Hotchkiss JR, Adams AB, Stone MK, Marini JJ. Distal projection of insufflated gas during tracheal gas insufflation. J Appl Physiol. 2002;92(5):1843-50. http://dx.doi. org/10.1152/japplphysiol.00160.2001

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[20] Davies MW, Woodgate PG. Tracheal gas insufflation for the prevention of morbidity and mortality in mechanically ventilated newborn infants. Cochrane Database of Systematic Reviews 2002, Issue 2.

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[22] Kallet RH. Adjunct therapies during mechanical ventilation: airway clearance techniques, therapeutic

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[23] Monteiro Weigert R. et.al. Insuflação de gás traqueal como recurso terapêutico em ventilação mecânica invasiva: revisão sistemática. Clin Biomed Res 2018;38(2).

[24] Juliane Regina Lucindo Euzébio et. al. Insuflação de Gás Traqueal (TGI): Recurso Terapêutico de Ventilação Protetora Pulmonar em prol a Hipercapnia em Unidade de Terapia Intensiva Adulto.Revista eletrônica Saúde e Ciência. Vol 8. Nº 1.

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