MOTTLING
(MOSQUEAMENTO)
ENTENDENDO
A FISIOPATOLOGIA DA SUA FORMA DE RENDILHADO
REVISÃO DE ESCOPO.
Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico Intensivista. Coordenador da UTI Cirúrgica II da Santa Casa de São José dos Campos. Novembro de 2026
1. CONCEITO
O
mottling (“mosqueamento”, “rendilhado”) é uma alteração violácea
irregular da pele, causada geralmente por uma redução heterogênea do fluxo
cutâneo. Seu valor clínico é principalmente prognóstico e deve ser interpretado
em conjunto com parâmetros de avaliação da perfusão capilar (como tempo de
enchimento capilar), nível sérico de lactato, débito urinário, estado do nível
de consciência, temperatura corporal e estado hemodinâmico.
A
Sociedade Europeia de Medicina Intensiva recomenda monitorar a perfusão cutânea
principalmente pelo tempo de enchimento capilar (TEC), usando temperatura corporal
e o mottling como sinais complementares, preferencialmente em avaliações
seriadas e associadas a monitorização adicional quando houver suspeita de
choque (ESICM guidelines on circulatory shock and hemodynamic monitoring
2025).
2. TERMINOLOGIA E DISTINÇÃO DERMATOLÓGICA
- Mottling: manchas violáceas irregulares, geralmente iniciadas ao redor dos joelhos, observadas principalmente em estados de choque circulatório (séptico, cardiogênico, hipovolêmico ou obstrutivo).
Fig.1
Fonte: https://journalclubemergencia.substack.com/p/journal-club-mottling-score-quando
· Livedo reticularis (fisológico):
padrão reticular regular, fechado e simétrico, com anéis completos e com
interligações nítidas que delimitam áreas centrais de pele normal ou pálida. frequentemente
reversível com aquecimento ou elevação do membro. É mais comum nas pernas e
costuma ser fisiológico (como uma reação ao frio, conhecida como cutis
marmorata), desaparecendo ou diminuindo gradualmente com o reaquecimento do
corpo. Geralmente resulta de uma resposta vasoespástica benigna dos pequenos
vasos da pele, embora possa, em alguns casos, estar associado a medicamentos ou
a condições sistêmicas leves.
Fig.
2 Fonte: Sajjan VV. et.al. Livedo reticularis: A review of the literature.
Indian Dermatol Online J. 2015
· Livedo racemosa:
padrão reticular irregular, aberto, assimétrico, persistente, ramificado e
descontínuo (com linhas que não confluem totalmente) com anéis incompletos e
“quebrados”. Sugere vasculopatia ou vasculite. Costuma ser mais disseminado,
afetando não apenas as pernas, mas também áreas como o tronco e as nádegas.
Persiste mesmo após o aquecimento da pele. É sempre considerado patológico
(anormal). Está fortemente associado a doenças sistêmicas graves, como a
síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF), lúpus eritematoso sistêmico,
vasculites e a síndrome de Sneddon (que combina livedo racemosa e alterações
neurológicas). Pode vir acompanhado de dor, ulcerações ou histórico de
tromboses.
Fig.3
Fonte: Sajjan VV. et.al. Livedo reticularis: A review of the literature. Indian
Dermatol Online J. 2015
Ehrmann
diferenciou livedo reticularis de livedo racemosa em 1907.
O
mottling score foi desenvolvido posteriormente para quantificar a
extensão do mosqueamento em pacientes criticamente enfermos.
Os
critérios atuais de classificação de síndrome antifosfolípide distinguem livedo
racemosa patológica da livedo reticularis fisiológico, que não deve ser
pontuada como manifestação classificatória.
3. MECANISMOS
FISIOPATOLÓGICOS ASSOCIADOS À HIPOPERFUSÃO
Os mecanismos principais são:
- Vasoconstrição simpática heterogênea: a ativação adrenérgica compensatória reduz o fluxo sanguíneo arteriolar dérmico por vasoconstrição redistribuindo-o para órgãos vitais como cérebro e coração. Essa vasoconstrição não é homogênea já que depende da densidade e distribuição dos receptores adrenérgicos.
- Disfunção endotelial regional: a pele mosqueada apresenta menor vasodilatação dependente do endotélio. Bourcier et. al. demonstraram esse fenômeno em um estudo de coorte de 37 pacientes com sepse.
- Heterogeneidade microcirculatória: perda de capilares funcionais, fluxo intermitente, shunts, edema endotelial, lesão do glicocálice, adesão leucocitária e microtrombose produzem áreas adjacentes de hiperperfusão e hipoperfusão.
- Dissociação macro-microcirculatória: o mottling pode persistir apesar de pressão arterial média, débito cardíaco ou pressão arterial ficarem aparentemente adequados. Portanto, não representa simplesmente hipotensão sistêmica.
- Vasopressores: podem intensificar a vasoconstrição cutânea. Dumas et. al., em um estudo de coorte com 259 pacientes sépticos, encontraram associação entre mottling e mortalidade independentemente da dose de vasopressor; o odds ratio (OR) associado ao escore foi 2,26 (intervalo de confiança de 95% [IC 95%], 1,72-2,97).
- Choque cardiogênico: o sinal também pode ocorrer em estados de choque cardiogênico ou estados de baixo débito, hipovolemia, embolia pulmonar com choque normotensivo e doença arterial periférica. O mottling identifica alteração de perfusão periférica, mas não define sozinho a etiologia do choque.
4. PORQUE O MOTTLING TER FORMA DE RENDILHADO?
A circulação sanguínea da pele é organizada de forma tridimensional e funcional, dividindo-se didaticamente entre o modelo microvascular do sistema de cone invertido hexagonal (descrito por pesquisadores como Braverman) e o modelo macrovascular dos angiossomas (proposto por Ian Taylor). Ambos os conceitos explicam como o sangue é distribuído de forma eficiente para nutrir o tecido cutâneo e manter a termorregulação.

Fig.
4 Estrutura e Camadas da pele
4.1
O modelo do Sistema de Cone Invertido Hexagonal (microcirculação)
Na
microanatomia cutânea, o suprimento sanguíneo da pele é organizado em unidades
geométricas tridimensionais distintas, frequentemente modeladas como cones
invertidos ou colunas hexagonais (cilindros). O sistema microcirculatório da
pele está estruturalmente dividido em uma rede profunda e uma rede
superficial que alimentam essas colunas verticais:
Esse
projeto arquitetônico, descrito de forma notável por pesquisadores como Irwin
M. Braverman, permite que a pele gerencie de forma eficiente tanto o
fornecimento de nutrientes quanto a regulação da temperatura corporal.
Cada unidade microcirculatória tem o formato tridimensional de um cone de cabeça para baixo.
- Ápice do Cone: Fica localizado na derme profunda, na junção da derme com o tecido adiposo subcutâneo, onde uma arteríola ascendente central emerge e sobe verticalmente a partir do plexo profundo que constitui a base da rede vascular Grandes artérias irrigam essa rede profunda.
- Ascensão Vertical (Vasos Comunicantes): As arteríolas ramificam-se do plexo profundo e ascendem verticalmente através da derme reticular. Cada uma dessas arteríolas ascendentes atua como eixo central para um único "cone" ou coluna de tecido. O sangue arterial (rico em oxigênio e bem vermelho) sobe por pequenas artérias que ficam bem no centro de "cones" invisíveis na pele. Ele irriga o centro desse cone e depois se espalha para as bordas.
- Base do Cone: Situa-se na derme papilar (superficial), onde essa arteríola se ramifica radialmente em uma rica rede de capilares, formando o ápice da rede vascular (plexo papilar superficial). À medida que a arteríola atinge a parte superior da derme (a derme papilar), ela se ramifica horizontalmente como um leque ou a copa de uma árvore, formando uma rede de capilares. Isso forma a base do cone invertido logo abaixo da epiderme. Nas bordas de cada cone, o sangue já perdeu oxigênio (tornando-se sangue venoso, que é mais azulado/escuro) e desce de volta pelas veias.
- O Padrão Hexagonal: Ao atingirem a superfície da pele, os limites tridimensionais dessas ramificações periféricas formam um mosaico de áreas hexagonais ou poligonais justapostas.
- Dinâmica do Fluxo Sanguíneo: O sangue oxigenado flui sob maior pressão pelo centro do cone (pela arteríola ascendente), distribui-se pelas alças capilares papilares e drena para as vênulas descendentes localizadas na periferia (bordas) desse hexágono.
- Correlação Clínica: Se houver diminuição da temperatura corporal, lentidão do fluxo ou obstrução vascular, o sangue estagna nas bordas periféricas do hexágono (onde o oxigênio já foi consumido). Isso gera o desenho em rede arroxeada na pele conhecido como mosqueamento.
Os vasos sanguíneos estão distribuídos abundantemente sob a pele. Particularmente importante é um plexo venoso contínuo, suprido pelo fluxo sanguíneo dos capilares da pele, conforme mostrado nas Figuras 5,6 e 7. Nas áreas mais expostas do corpo (mãos, pés e orelhas) o sangue também é fornecido ao plexo diretamente pelas pequenas artérias através de anastomoses arteriovenosas altamente musculares.

Fig.
6. Adaptado de https://medizzy.com/feed/40917121

Fig
7. Fonte: Jackson S. et.al. Vascular Disturbances of the Skin in Critically Ill
Patients.CHEST, 2024
- Territórios independentes (angiossomas): A pele é modular. Como o suprimento sanguíneo é dividido nessas unidades distintas, semelhantes a colunas, o corpo consegue compartimentalizar lesões. Se uma unidade vascular for danificada ou bloqueada, as colunas vizinhas geralmente conseguem manter a viabilidade do tecido circundante.
- Termorregulação de Precisão: O corpo controla sua temperatura ajustando o fluxo sanguíneo através dessas colunas. Quando você está com calor, os esfíncteres pré-capilares se dilatam, inundando a parte superior dos cones com sangue para irradiar o calor. Quando você está com frio, esses esfíncteres se contraem, mantendo o sangue mais abaixo, na haste da coluna, para preservar o calor central.
- Padrões
Visuais em Patologia: Esta estrutura hexagonal em forma de coluna explica certas
condições médicas. Por exemplo, na livedo reticularis (uma condição
vascular que causa uma descoloração arroxeada em forma de rede na pele). A
descoloração delineia os limites externos dessas colunas hexagonais onde o
fluxo sanguíneo está estagnado ou reduzido composto de sangue não oxigenada de
cor arroxado.
Quando
o fluxo de sangue diminui (seja por frio, choque circulatório, sepse ou
insuficiência cardíaca), as artérias centrais se contraem ou o sangue se move
muito devagar. O sangue azulado e sem oxigênio fica "represado"
exatamente nas bordas desses cones. Como as bordas de vários cones vizinhos se
conectam ao redor da pele saudável, elas formam visualmente uma rede contínua
de linhas azuladas ou arroroxeadas, criando o padrão rendilhado.
4.2.
O modelo dos Angiossomas (Macrocirculação)
Enquanto
o cone hexagonal lida com o nível microscópico, o conceito de angiossoma (ou
angiosome) mapeia os territórios vasculares em larga escala, integrando a pele
aos tecidos profundos.
· Definição:
Um angiossoma é um bloco tridimensional de tecidos (composto por pele, tecido
subcutâneo, fáscia, músculo e, por vezes, osso) que recebe nutrição de uma
única artéria fonte calibrosa e suas veias correspondentes. O corpo humano
possui cerca de 40 angiossomas principais.
· Vasos Perfurantes:
A artéria principal envia ramos chamados de perfurantes (sejam septocutâneos ou
musculocutâneos) que cruzam as fáscias para alimentar os cones microvasculares
da pele.
· Zonas de Fronteira (Choke Vessels):
Os angiossomas vizinhos não são isolados; eles se conectam por vasos de calibre
reduzido chamados vasos de estrangulamento (choke vessels) ou por anastomoses
verdadeiras. Em condições normais, o fluxo entre eles é mínimo, mas eles podem
se dilatar se o fluxo vizinho falhar.
· Aplicação na Cirurgia Plástica:
Conhecer o mapa de angiossomas permite que os cirurgiões desenhem e levantem
retalhos de pele e tecidos com segurança. Desde que a artéria fonte do
angiossoma seja preservada, todo o bloco de pele correspondente sobreviverá ao
transplante ou transposição.
5. ETIOLOGIAS NÃO
NECESSARIAMENTE ASSOCIADAS À HIPOPERFUSÃO SISTÊMICA
O
aspecto rendilhado pode resultar de alterações predominantemente cutâneas ou
regionais:
·
Exposição ao frio, cutis marmorata fisiológica, livedo
idiopático e fenômeno de Raynaud;
·
Livedo congênito ou cutis marmorata telangiectatica
congenita;
·
Síndrome antifosfolípide, síndrome de Sneddon e vasculopatia
livedoide;
· Crioglobulinemia, vasculite cutânea, poliarterite nodosa e
deficiência de adenosina-desaminase 2;
· Embolização de colesterol, hipercoagulabilidade, neoplasia e
alguns fármacos, incluindo amantadina;
·
Lesão endotelial e microtrombose associadas a infecções
virais, incluindo COVID-19.
Nessas
situações, pode haver isquemia ou disfunção microvascular local, sem
necessariamente existir choque ou hipoperfusão global.
6. ORIGEM E INTERPRETAÇÃO
DO MOTTLING SCORE.
Ait-Oufella
et. al. introduziram o escore em 2011, em um estudo observacional prospectivo
de pacientes com choque séptico.
O
escore quantifica a extensão do mottling dos joelhos em direção à periferia. A
concordância interobservador foi elevada.
TABELA
1. MOTTLING ESCORE
|
Escore |
Extensão
anatômica |
Interpretação
clínica |
|
0 |
Ausente |
Não exclui hipoperfusão |
|
1 |
Área pequena, do
tamanho de uma moeda, no centro do joelho |
Achado limítrofe |
|
2 |
Até a borda superior da
patela |
Hipoperfusão periférica provável |
|
3 |
Até a metade da coxa |
Alteração extensa |
|
4 |
Até a prega inguinal |
Hipoperfusão grave |
|
5 |
Além da região inguinal |
Alteração muito extensa |

Fig.
8. MOTTLING SCORE
Ait-Oufella
et. al. encontraram mortalidade em 14 dias progressivamente maior: comparado
aos escores 0–1, o OR foi 16 para escores 2–3 e 74 para escores 4–5 (IC 95%,
11-1.568).
Uma
meta-análise de Shi et. al., com 22 estudos e 2.727 pacientes sépticos,
confirmou associação entre escore elevado e mortalidade em 28 dias (OR, 2,27;
IC 95%, 1,79-2,87), embora com heterogeneidade entre protocolos e momentos de
avaliação.
TABELA 2. Evidência de
validação e limitações
|
Estudo |
Principal
achado |
|
Ait-Oufella et. al.,
2013, coorte |
A piora do escore
acompanhou redução do fluxo cutâneo medido por laser Doppler; a melhora
acompanhou aumento do fluxo. |
|
Dumas et. al., 2019,
coorte |
O valor prognóstico
permaneceu após ajuste para lactato, débito urinário, pressão arterial e dose
de vasopressor. |
|
Kazune et. al., 2019,
coorte |
Mottling sobre a patela
ou acima foi sensível, porém pouco específico; alguns pacientes com escore 0
já apresentavam hipoxia cutânea importante. |
|
Luo et. al., 2024,
coorte pós-cirurgia cardíaca |
A especificidade para
hipoperfusão periférica foi 98%, 97% e 91%, mas a sensibilidade foi apenas
29%, 38% e 67% em populações global, hipotensa e em choque, respectivamente. |
7. FALSOS POSITIVOS E
FALSOS NEGATIVOS.
7.1
Falsos positivos: mottling sem hipoperfusão sistêmica relevante:
·
Frio, livedo fisiológico, Raynaud e vasoespasmo;
·
Doença arterial periférica ou alteração vascular restrita ao
membro;
·
Vasoconstrição induzida por vasopressor;
·
Livedo crônico por síndrome antifosfolípide,
crioglobulinemia, vasculite ou fármacos;
·
Erro de interpretação visual por iluminação, temperatura ou
dermatose prévia.
7.2
Falsos negativos: ausência de mottling apesar de hipoperfusão:
·
Fase inicial do choque ou hipoperfusão predominantemente
visceral;
·
Pele escura, baixa iluminação ou dificuldade de distinguir a
coloração;
·
Cirrose, na qual o aparecimento pode ser tardio e a
sensibilidade menor;
·
Edema, alterações cutâneas prévias ou avaliação em local
inadequado;
·
Microcirculação comprometida sem alteração visual suficiente.
Kazune
et. al. observaram hipoxia cutânea mensurável mesmo em pacientes com mottling
score 0, enquanto Varis et. al. demonstraram que a saturação tecidual regional
podia detectar alterações não identificadas visualmente pelo escore. Assim, mottling
ausente não exclui choque, e mottling presente não identifica isoladamente
sepse ou necessidade de fluidos.
8.
PORQUE O MOTTLING APARECE NOS ESTADOS DE CHOQUE EM ALGUNS PACIENTES E EM OUTROS
NÃO?
O
mottling aparece apenas quando a combinação de vasoconstrição, heterogeneidade
microcirculatória e redução do fluxo cutâneo ultrapassa um limiar visível. Como
esses componentes variam entre pacientes, o mesmo estado macrocirculatório de
choque pode produzir pele mosqueada em um paciente e pele aparentemente normal
em outro.
Por
que isso acontece?
·
Fenótipos microcirculatórios
diferentes
O choque não é uma
entidade microvascular uniforme. Em alguns pacientes predominam vasoconstrição
cutânea e perda de capilares funcionais; em outros, há vasoplegia, shunts,
baixo débito ou disfunção endotelial sem redução suficiente do fluxo cutâneo
para produzir alteração visual. Na sepse, capilares adjacentes podem estar
perfundidos, intermitentes ou sem fluxo, mesmo com pressão arterial média e
débito cardíaco corrigidos.
·
Diferenças no tônus simpático e na
resposta vascular
O mottling resulta
principalmente de vasoconstrição heterogênea das pequenas artérias e arteríolas
dérmicas. A intensidade dessa resposta depende do tônus simpático basal, da
sensibilidade aos vasopressores, da função dos receptores adrenérgicos e da reserva
vascular individual. A norepinefrina pode recrutar capilares quando a pressão
está criticamente baixa, mas também pode aumentar a vasoconstrição pré-capilar
em outros pacientes; a resposta é, portanto, variável e dependente do contexto.
·
Disfunção endotelial regional
O sinal não reflete
apenas o fluxo global. Bourcier et. al., em uma coorte de 37 pacientes com
sepse, demonstraram resposta vasodilatadora dependente do endotélio muito menor
na pele mosqueada do joelho do que na pele não mosqueada, sem diferença
equivalente no antebraço. Isso sugere que a lesão pode ser regional e desigual.
·
Momento e duração do choque
No início, ainda pode
existir coerência entre macrocirculação e microcirculação. Posteriormente, a
disfunção microvascular pode persistir apesar da normalização da pressão e do
débito cardíaco. Um paciente avaliado precocemente pode ainda não ter
desenvolvido mottling, enquanto outro, com choque mais prolongado, pode
apresentar alterações extensas.
·
Perfusão cutânea basal e comorbidades
Cirrose, doença arterial
periférica, idade, temperatura, edema, doença vascular prévia e características
individuais da pele alteram a probabilidade de o sinal aparecer. Em cirróticos
com choque séptico, Galbois et. al. observaram aparecimento tardio do mottling
e maior perfusão cutânea do joelho, reduzindo sua sensibilidade.
·
O sinal pode estar presente, mas não
ser visualmente detectado
Kazune et. al. observaram
hipoxia microvascular mensurável mesmo em pacientes com mottling score 0. Varis
et. al. também encontraram alterações de saturação tecidual por espectroscopia
no infravermelho próximo em pacientes sem mottling, provavelmente porque a
técnica instrumental detecta alterações mais sutis e contínuas que o exame
visual categórico. A própria avaliação tem variabilidade: iluminação,
temperatura ambiente, pigmentação cutânea e julgamento do examinador podem
fazer o sinal parecer ausente ou mais extenso do que realmente é.
9. CONCLUSÃO CLÍNICA
O
mottling score é uma ferramenta visual, seriada e prognóstica para hipoperfusão
periférica, especialmente útil no choque séptico, mas não deve ser usado
isoladamente para diagnosticar choque, indicar infusão de fluidos ou definir
sua etiologia.
Seu
valor clínico é principalmente prognóstico e deve ser interpretado em conjunto
com parâmetros de avaliação da perfusão capilar (como tempo de enchimento
capilar), nível sérico de lactato, débito urinário, estado do nível de consciência,
temperatura corporal e estado hemodinâmico.
A
próxima etapa diante de um mottling novo ou agudo, extenso ou persistente é
confirmar a tendência com tempo de enchimento capilar e outros marcadores de
perfusão, enquanto mottling isolado crônico ou reversível ao calor deve
direcionar investigação dermatológica e vascular.
A
ausência de mottling não exclui hipoperfusão; ela pode significar
microcirculação ainda preservada, fase precoce, distribuição regional da
disfunção ou limitação de detecção.
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