domingo, 13 de agosto de 2023

                             TAMPONAMENTO RENAL E LESÃO RENAL AGUDA


Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico intensivista. Responsável Técnico e Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos.



O termo “tamponamento renal” (renal tamponade) vem sendo cada vez mais usado para descrever quadros de disfunção renal associados a congestão renal por compressão intrarrenal ou extra-renal de estruturas intrarrenais como artérias, veias, glomérulos e túbulos, diminuindo a função do rim. O quadro pode ser comparado ao derrame pericárdico com tamponamento cardíaco. Pacientes com derrame pericárdico agudo podem apresentar parada cardíaca devido a um tamponamento cardíaco, enquanto toleram grandes derrames pericárdicos crônicos. A taxa de acumulação é um fator decisivo para o efeito de tamponamento. É por essa semelhança que o termo “tamponamento renal” vem sendo citado em diferentes artigos.

Um exemplo clássico de lesão renal como resultado da compressão pode ser encontrado no rim de Page: uma síndrome clínica de função renal diminuída e/ou hipertensão decorrente da compressão externa no rim, mais comumente por hematoma subcapsular, que leva a hipoperfusão por compressão vascular principalmente do sistema arterial[1]. Irvine Page descreveu pela primeira vez essa entidade em 1939. Ele realizou experimentos com animais nos quais envolveu os rins em celofane. Seguiu-se uma intensa resposta inflamatória que produziu uma casca fibrocolágena que comprimiu o rim. A compressão dos vasos intrarrenais levou à isquemia e ativação do SRAA. A hipertensão se desenvolveu dentro de 4 a 5 semanas e foi curada por nefrectomia do rim afetado. Em 1955, Engel e Page descreveram o primeiro caso de rim de Page em um jogador de futebol de 19 anos com história de hipertensão há 2 anos, que havia sofrido trauma no flanco dois anos antes e que apresentava hematoma subcapsular. A hipertensão foi curada após nefrectomia. A hipertensão no rim de Page é mediada pela ativação do SRAA e o mecanismo da hipertensão é semelhante à hipertensão de Goldblatt. Goldblatt, em seus experimentos, aplicou pinças na artéria renal principal para reduzir o fluxo sanguíneo. A hipoperfusão dos rins leva à liberação de renina, ativação do SRAA que leva à hipertensão. No rim de Page, a compressão externa do rim leva à diminuição da perfusão nos vasos sanguíneos intrarrenais. A isquemia microvascular resultante causa ativação do SRAA levando à hipertensão[2]. O baixo fluxo renal reduz a TFG o que faz com que menos NaCl chegue até a macula densa do TCD, portanto haverá menor concentração de NaCl. Menos cloreto será reabsorvido neste segmento tubular. A queda da reabsorção de cloreto pela mácula densa é “sentida” pelas células justaglomerulares da arteríola aferente se constituindo em importante estímulo para a secreção de renina que por sua vez leva a um aumento da angiotensina II (potente vasoconstritor sistêmico) e a HAS. A arteríola eferente contém mais células musculares que a arteríola aferente tendo propensão maior a se contrair, fazendo aumentar a pressão intraglomerular e a TFG[3]. Entretanto, os efeitos do sódio no SRAA são contrários. Alta concentração de sódio na macula densa acarreta aumento na secreção de renina e concentração baixa de sódio diminui a produção de renina[4].

Em 2007, Abutaleb, N., e Obaideen, A. relatam um caso de lesão renal por hematoma subcapsular como “tamponamento renal”[5]. O fato de o rim ser circundado por uma cápsula rígida e não expansível (capsula renal) desempenha um papel crucial nos efeitos de compressão. Mais recentemente em 2023, Tamoki Taniguchi e col., descrevem um caso de hidronefrose relacionada ao rim de Page que apresentou hipertensão hiperreninêmica e disfunção renal cuja fisiopatologia seria o “tamponamento renal”, em que o rim foi comprimido entre a pelve renal e fáscia de Gerota, resultando em isquemia microvascular intrarrenal[6]. Em janeiro de 2023, Jonathan S. Chávez-Íñiguez e col., numa revisão do manejo da síndrome cardiorrenal tipo I (relato de caso) destacam a congestão venosa renal como um dos principais determinantes da disfunção renal, secundária à ativação neuro-hormonal, inflamatória e hemodinâmica, que agrava a incapacidade renal de excretar sódio e água. A esta congestão renal gerada por aumento da pressão venosa central promovendo a compressão do parênquima renal, se referem como “nefropatia congestiva” termo proposto por Husain-Syed F. e col., em 2021[7] . Mas, considerando que ocorre um aumento da pressão intersticial em um órgão encapsulado também se referem a essa entidade como “tamponamento renal” como sendo um dos principais mecanismos fisiopatológicos associados ao comprometimento da função renal[8].

 

CONCEITOS ANATOMO-FISIOLOGICOS

Os rins encontram-se fora da cavidade peritoneal (órgão extraperitonial). Cada rim em um adulto pesa aproximadamente 150 gramas. O rim é recoberto por uma membrana dura e fibrosa de tecido conjuntivo (constituída por tecido colágeno denso e irregular)  denominada capsula renal. O parênquima renal se divide em duas regiões: uma externa denominada cortical ou córtex renal (de aproximadamente 1cm de espessura, contém os glomérulos de Malpighi) e uma mais interna denominada medular ou medula, que se divide em 8 a 10 massas de tecido em forma de cone chamadas de pirâmides de Malpighi. A base de cada pirâmide origina-se na borda entre o córtex e a medula, e termina na papila, que se projeta para dentro do espaço da pelve renal, uma continuação da extremidade superior do ureter, em forma de funil. Nas regiões laterais, as pirâmides fazem contato com extensões de tecido cortical para a medula, denominadas colunas de Bertin. A borda externa da pelve é dividida em bolsas abertas denominadas cálices maiores, que se estendem para baixo e se dividem em cálices menores, que coletam a urina dos túbulos de cada papila. O rim pode ser dividido esquematicamente em lobos, cada um formado por uma pirâmide de Malpighi, associada ao tecido cortical adjacente. As paredes dos cálices, da pelve e do ureter contêm elementos contráteis que impulsionam a urina em direção a bexiga, onde é armazenada até que seja eliminada pela micção.

O sangue flui para cada rim através da artéria renal, que se ramifica progressivamente para formar as artérias interlobares, artérias arqueadas (ou arciformes), artérias interlobulares e as arteríolas aferentes, que dão origem aos capilares glomerulares (se capialriza na forma de tufo), onde a filtração dos líquidos e dos solutos começa. Os capilares de cada glomérulo se juntam para formar uma arteríola eferente que continua o trajeto arterial para nutrir o parenquima renal. As arteríolas eferentes que drenam os glomérulos corticais se dividem em um plexo capilar que envolve os túbulos renais (capilares peritubulares). Aquelas que drenam os glomérulos justamedulares formam os vasos retos; estes são feixes de vasos que mergulham na medula em profundidades variadas, formando plexos capilares que envolvem as alças de Henle e depois se juntam para formar os vasos retos ascendentes, que eventualmente drenam para as veias renais. Os vasos retos formam um sistema de troca em contracorrente essencial para a formação de urina concentrada e diluída (em relação ao plasma). Os capilares peritubulares se esvaziam nos vasos do sistema venoso, que correm paralelos aos vasos arteriolares, e progressivamente formam a veia interlobular, veia arqueada, veia interlobar e veia renal. A veia renal deixa o rim ao longo da artéria renal e do ureter. A parte externa do rim, o córtex renal, recebe a maioria do fluxo sanguíneo do rim e apenas 1% a 2% do total do fluxo sanguíneo renal passa pelos vasos retos, que suprem a medula renal. Duas características distintas da circulação renal são a alta taxa de fluxo de sangue e a presença de dois leitos capilares, os capilares glomerulares e peritubulares, que são arranjados em série e separados pelas arteríolas eferentes. Os capilares glomerulares filtram grandes quantidades de líquidos e solutos, a maioria dos quais são reabsorvidos dos túbulos renais nos capilares peritubulares. As arteríolas aferentes, antes de se capilarizarem, costumam apresentar uma modificação da camada média, e passam a exibir células especializadas que, pela localização são chamadas de células justaglomerulares. O túbulo contorcido distal (TCD), em determinado momento de seu trajeto, aproxima-se da arteríola aferente (do mesmo néfron) exatamente no mesmo ponto onde estão as células justaglomerulares. Neste local sua parede se modifica, formando uma estrutura conhecida como mácula densa. O conjunto de células justaglomerulares com a mácula densa forma o Aparelho Justaglomerular que serve de meio de comunicação entre o fluido tubular e a arteríola aferente para promover um “feedback tubuloglomerular”, importante para a regulação da filtração glomerular.







O fluxo sanguíneo renal é mantido constante apesar das variações da pressão arterial sistêmica, determinando assim a “pressão de perfusão renal” (PPR). A PPR se mante constante pelo mecanismo de “autoregulação da taxa de filtração glomerular” entre pressões arteriais medias de 80 a 200mmHg (pressão intraglomerular deve se manter em aproximadamente 60mmHg). São 4 mecanismos que funcionam para essa autoregulação[9]:

1) Vasodilatação da arteríola aferente. O tônus da arteríola aferente é o principal determinante da resistência vascular do rim. Os miócitos da arteríola aferente possuem “receptores de estiramento” dos quais depende um reflexo vascular de vasodilatação ou vasoconstrição. Aumentos da PAM provoca distensão dos miócitos, gerando uma resposta imediata de vasoconstrição cálcio mediada da arteríola aferente (endotelina). Quedas de PAM provocara relaxamento dos miócitos promovendo vasodilatação, mediada por vasodilatadores endógenos como prostaglandinas (PGE2), cininas e oxido nítrico. Quando a PAM cai abaixo de 80mmHg o fluxo sanguíneo renal sofre redução, pois o mecanismo de autoregulação chegou no seu limite.

2) Vasoconstrição da arteríola eferente. A arteríola eferente contém mais células musculares do que a arteríola aferente, pelo que tem maior propensão a se contrair. Ao haver queda inicial da PAM, se reduz o fluxo sanguíneo renal, a pressão intraglomerular e a TFG com menos fluido tubular chegando até a região da macula densa do TCD. Essa queda ativará o feedback tubuloglomerular do aparelho justaglomerular dependente da reabsorção de cloreto, com secreção de renina pelas células justaglomerlares que por sua vez ativará o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). A angiotensina II gerada atuará local e sistemicamente na arteríola eferente provocando vasoconstrição, fazendo aumentar a pressão intraglomerular e a TFG. O eventual efeito vasoconstritor na arteríola aferente é superado pelos efeitos dos mediadores vasodilatadores secretados localmente na arteríola aferente.

3) Feedback Tubuloglomerular. O baixo fluxo renal reduz a TFG o que faz com que menos NaCl chegue até a macula densa do TCD, portanto haverá menor concentração de NaCl. Menos cloreto será reabsorvido neste segmento tubular. A queda da reabsorção de cloreto pela mácula densa é “sentida” pelas células justaglomerulares da arteríola aferente, o que promove uma vasodilatação da aa e ainda estimula a secreção de renina que por sua vez leva a um aumento da angiotensina II com vasoconstrição da arteríola eferente. Um aumento da PAM e consequentemente da TFG terá um efeito oposto: mais cloreto chega à mácula densa, mais cloreto é reabsorbido, inibindo provocando vasoconstrição da arteríola aferente.

4) Retenção hidrosalina e natriurese. O SRAA termina na produção de aldosterona pelas suprarenais que promove a retenção de sódio e água pelos túbulos renais, visando aumentar a volemia e a TFG.




CHOQUE CIRCULATÓRIO E LESÃO RENAL AGUDA

Frequentemente estamos mais familiarizados a ver quadros de lesão renal aguda (LRA) associada a estados de choque circulatório que levam a redução do fluxo sanguíneo arterial renal, comprometimento da irrigação das células tubulares pelas arteríolas eferentes e necrose tubular aguda de tipo isquêmica (NTA isquêmica); ou a diversas nefrotoxinas que são capazes de modificar o ritmo de filtração glomerular por induzir alterações em vários determinantes da filtração glomerular (NTA nefrotóxica). A fisiopatologia da LRA isquêmica ou tóxica envolve alterações estruturais e bioquímicas que resultam, basicamente, em comprometimento vascular e/ou celular que leva à vasoconstrição, alteração de função e/ou morte celular, descamação do epitélio tubular e obstrução intraluminal, vazamento transtubular do filtrado glomerular e inflamação. A vasoconstrição intrarrenal é causada por um desequilíbrio entre os fatores vasoconstritores e vasodilatadores, resultante da ação, tanto sistêmica como local, de agentes vasoativos. Assim, ocorrem modificações importantes na hemodinâmica glomerular e intrarrenal como consequência natural desse desequilíbrio. Esse mecanismo fisiopatológico é mediado por hormônios, com ativação de hormônios vasoconstritores (angiotensina II, endotelina etc.) e/ou inibição de vasodilatadores (prostaglandinas, óxido nítrico etc.). Esse desequilíbrio resulta em vasoconstrição das arteríolas aferente e eferente (esta última responsável pela perfusão das células tubulares) e contração da célula mesangial e leva à redução do coeficiente de ultrafiltração glomerular. Conforme mencionado anteriormente, as alterações hemodinâmicas são, na maioria das vezes, mediadas por ação predominante de hormônios vasoconstritores; entretanto, a via final comum pela qual estes hormônios realizam suas ações envolve a elevação do cálcio intracelular (Ca), tanto em células da vasculatura como em células mesangiais. Nesse sentido, vários estudos experimentais mostram que o cálcio é um dos mediadores mais importantes da vasoconstrição intrarrenal. O aumento do cálcio livre no citosol de células da musculatura lisa eleva o tônus vascular e contribui para a vasoconstrição, a qual pode ser revertida ou minimizada pela utilização de bloqueadores de canais de cálcio. Outra participação importante do cálcio na cascata fisiopatológica da LRA envolvendo a hemodinâmica renal se relaciona com a contração da célula mesangial. O aumento do Ca é, geralmente, iniciado pela interação de hormônios vasoconstritores com seus receptores ou pela ação direta de toxinas. Um dos eventos mais precoces resultantes da isquemia ou mesmo na vigência de uma nefrotoxina é a redução dos níveis intracelulares de ATP e, portanto, das porções do néfron que possuem alta taxa de reabsorção tubular com gasto de energia, como o túbulo proximal e a alça ascendente espessa de Henle, que são particularmente mais suscetíveis à isquemia por apresentarem elevado consumo de ATP. Os efeitos imediatos da depleção de ATP são: redução da atividade ATPase da membrana citoplasmática, desequilíbrio nas concentrações intracelulares de eletrólitos como Na, K e Ca, e edema celular. Esse desarranjo desencadeia, por sua vez, uma série de eventos que incluem desestruturação do citoesqueleto, perda da polaridade celular, perda da interação célula-célula, produção das espécies reativas de oxigênio (altamente tóxicas para a célula) e alterações do pH intracelular, que podem culminar com a morte da célula. Um fator agravante, na fisiopatologia da LRA, particularmente nas situações de LRA isquêmica, é a dificuldade em distinguir os danos causados pela isquemia per se daqueles causados pela reperfusão. Isso ocorre porque os efeitos da reoxigenação súbita podem produzir danos adicionais à célula por mecanismos que envolvem a formação de espécies reativas de oxigênio, aumento do influxo de cálcio e reversão abrupta da acidose intratubular[10].

 

CONGESTÃO VENOSA E LESÃO RENAL AGUDA: TAMPONAMENTO RENAL

Em março de 2002, Eva M. Boorsma e col., publicou no Jornal os American College of Cardiology, uma interessante revisão sobre síndrome cardiorenal tipo I na qual levanta como fundamento fisiopatológico o “tamponamento renal”, discutindo 3 mecanismos que, isoladamente ou combinados, podem levar à congestão renal por compressão intrarrenal ou extrarrenal[11]. Os autores propõem a hipótese do “tamponamento renal” para explicar o comprometimento desproporcional da função renal quando as pressões venosas centrais aumentam em pacientes com IC. A cápsula renal que envolve o rim é muito rígida e não permite a expansão quando a pressão aumenta. O aumento das pressões venosas centrais leva ao aumento das pressões intersticiais renais, comprimindo estruturas renais como túbulos, veias intrarrenais e glomérulos no rim encapsulado.

1. Aumento da pressão intracapsular

O aumento da pressão dentro do parênquima renal pode resultar do aumento do volume no rim causado pelo aumento do líquido intersticial na IC, no contexto de um órgão (o rim) que não pode expandir em volume.

Histologicamente, a cápsula renal fibrosa consiste em muitas fibras colágenas em uma estrutura densa e irregular, tornando-a decididamente rígida. Pressões de até 10.000 mmHg são necessárias para esticar a cápsula até o dobro de seu tamanho ou até mesmo rompê-la. Pressões dessa magnitude geralmente são alcançadas apenas durante eventos traumáticos ou doença renal policística. Já são conhecidos os mecanismos pelos quais na IC aumenta a pressão intravascular principalmente venosa (PVC) levando a edema intersticial. Na pele, se manifesta como edema depressível; nos pulmões, como edema intersticial e alveolar. O edema intersticial também está presente nos rins, embora menos visível. Os rins, no entanto, não têm a capacidade de se expandir como a pele e o tecido subcutâneo. O motivo dessa falta de expansibilidade é a presença da cápsula renal muito rígida. Vários modelos de congestão renal em ratos e cães demonstraram que quando as pressões vasculares centrais ou renais são aumentadas, geralmente por clipagem da respectiva veia, as pressões intersticiais renais aumentam colinearmente. Além disso, a TFG e a produção urinária diminuem quase instantaneamente. Além disso, o clampeamento da veia renal induz proteinúria, refletindo (induzido por pressão) o dano à cápsula de Bowman. Dois estudos examinaram independentemente a perfusão renal em um modelo de rim congestionado e encontraram perfusão diminuída da medula renal, mas não do córtex renal. Anatomicamente, isso significa que os túbulos correm mais risco de danos por congestão do que os glomérulos. Isso é ainda apoiado pela noção de que a expressão intrarrenal de biomarcadores de dano tubular, em particular KIM-1 e osteopontina, foi aumentada em um modelo murino de congestão renal. Ainda mais interessante, a expressão desses biomarcadores foi atenuada pela remoção da cápsula antes de induzir a congestão. Além dos túbulos e glomérulos, as veias também são afetadas pela sobrecarga de pressão intracapsular, como demonstrado em vários pequenos estudos ultrassonográficos em humanos. No rim saudável, o fluxo sanguíneo venoso é minimamente alterado por alterações hemodinâmicas. No entanto, aumentos na pressão dentro da cápsula renal levarão ao colapso das veias renais porque a cápsula impede que o rim se expanda e as pressões são refletidas para dentro. Na ultrassonografia, um padrão de fluxo venoso descontínuo (bifásico ou monofásico) pode ser reconhecido; esse padrão está correlacionado com sinais e sintomas clínicos de congestão. Isso indica que, no rim congestionado, o sangue está sendo puxado por uma veia comprimida apenas durante a diástole (fase de menor compressão). Em resumo, a congestão intersticial do rim, combinada com a incapacidade do interstício de se expandir devido à cápsula renal, comprime estruturas intrarrenais como veias, glomérulos e túbulos, diminuindo sua função.

2. Aumento da pressão perirrenal

O aumento do volume de tecido adiposo dentro da fáscia perirrenal de Gerota pode levar ao aumento da pressão perirrenal. Tanto a espessura do tecido adiposo perirrenal ao redor do rim quanto o acúmulo de gordura no seio renal tem sido associado à doença renal crônica, arteriosclerose, hipertensão e ao aparecimento de diabetes. Essa associação pode ser explicada pelo tecido adiposo perirrenal comprimindo a vasculatura renal, levando à ativação patológica do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e redução da perfusão renal, bem como compressão venosa (mais) congestionando o interstício renal. Alternativamente, o tecido adiposo perirrenal pode causar ativação do SRAA por meio de suas propriedades inflamatórias e aumento dos níveis locais de TNF-α. A gordura do seio renal é interessante em relação à cápsula renal, visto que o seio renal não é protegido da compressão externa pela cápsula renal. Isso significa que o aumento do volume de gordura do seio renal aumenta diretamente as pressões dentro da cápsula renal. De fato, o volume do seio renal tem sido correlacionado tanto com a TFG quanto com a perfusão intrarrenal em pacientes com diabetes tipo 2. Embora este não seja um mecanismo agudo, a hemodinâmica intrarrenal alterada resultante da gordura perirrenal pode contribuir para uma diminuição da função renal no cenário de congestão intersticial. Ainda não está estabelecido se o aumento da gordura perirrenal e/ou da gordura do seio renal contribui para a congestão renal na IC.

3) Aumento da pressão intra-abdominal

Em pacientes com IC grave, a pressão intra-abdominal (PIA) pode aumentar devido à ascite ou ao aumento do líquido no sistema esplâncnico na ausência de ascite. A presença de ascite e sua gravidade têm sido associadas ao comprometimento da função renal na IC. A redução da PIA das terapias descongestivas e a remoção mecânica do fluido restauram a função renal. Isso indica uma relação indireta entre congestão venosa e função renal prejudicada, um efeito de massa direto nos rins retroperitoneais devido ao peso do peritônio cheio de líquido ou ambos. Em pacientes com obesidade (mórbida), a PIA aumenta de forma semelhante e diminui após a cirurgia de redução de peso. Além disso, vários estudos indicam que a cirurgia de redução de peso melhora os resultados renais e cardiovasculares em pacientes com obesidade mórbida. Dois estudos do mesmo grupo indicam que a compressão venosa renal, em vez da compressão do parênquima, é o principal fator por trás da diminuição da TFG, aumento da renina e aldosterona e início da proteinúria em pacientes com hipertensão intra-abdominal.




COMENTÁRIOS

A tese do tamponamento renal vem cobrando força para explicar situações de lesão renal aguda por congestão renal decorrente de edema intersticial, que pode estar associada a estados mórbidos como insuficiência cardíaca, mas também poderia ocorrer em decorrência de aumentos da pressão venosa central por outras causas dentre as quais importante lembrar dos estados de sobrecarga volêmica na fase de ressuscitação do choque.

A primeira questão é saber se o paciente é “fluidonecessitado”. O uso de fluidos nos estados de choque circulatório deveria obedecer a critérios claros de indicação, especialmente nos casos em que a hipovolemia é relativa como nos casos de choque vasoplégico com sequestro volêmico no compartimento venoso. Afinal, a ressuscitação nestes casos, a despeito de tentar aumentar o volume circulante efetivo, caso não se resolva a causa da vasoplegia levará apenas a uma melhora transitória com sobrecarga volêmica secundaria. Esta sobrecarga volêmica levará a aumento da pressão venosa central e lesão renal aguda por tamponamento renal. Desta forma o primeiro passo deveria ser sempre avaliar o status volêmico real do paciente para saber se está ou não precisando de volume.

A segunda questão é saber se o paciente é ou não “fluidoresponsivo”, isto é, se o coração ainda poderá responder ao aumento de volume com aumento da contratilidade. Paciente com função cardíaca previa reduzida, que se apresentam já como choque cardiogênico ou que desenvolvem disfunção cardíaca associada a outras formas de choque, devem ter sua reposição de fluidos, caso exista indicação, cuidadosamente guiada e monitorizada dando-se preferência a marcadores dinâmicos de fluidoresponsividade.

A terceira questão a ser considerada é avaliar se o paciente ainda é “fluidotolerante”. Isso significa que o paciente poderia ter sua volemia reduzida, ser ainda fluidoresponsivo, porém ele poderá estar no limite da sua tolerância tendo em visto que o aumento das pressões intravasculares poderá estar provocando edema intersticial em diferentes órgãos, sendo o rim talvez o que mais precocemente se afeta, gerando edema intersticial e tamponamento renal com lesão renal secundaria. O uso POCUS e o método VExUS é uma das ferramentas atualmente utilizadas para avaliar o grado de congestão venosa, monitorando o diâmetro da veia cava inferior, o fluxo da veia supra-hepática, da veia porta e das veias renais. O fluxo venoso renal discontinuo bifásico ou pior ainda monofásico serão indicadores de grau de congestão venosa.

Finalmente a quarta questão a ser considerada é a terapia de desresuscitação (ROSE) que deve estar sempre alinhada com a de ressuscitação. Exceto nos casos de choque hipovolêmico por perda real, a administração de fluidos nos outros tipos de choque, levará a estados de sobrecarga volêmica, especialmente na fase de resolução do quadro em que a volemia “sequestrada no compartimento venoso” retorna ao compartimento arterial. Nestes casos, oportuno será sempre usar estratégias de retirada de volume de forma gradual e monitorizada através da estratégia de desresuscitação.



[1] A. Haydar, R.S. Bakri, M. Prime, D.J.A. Goldsmith Page kidney: a review of the literature J Nephrol, 16 (2003), pp. 329-333

[2] Vaidya PN, Rathi BM, Finnigan NA. Page Kidney. [Updated 2023 Jan 22]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023 Jan-.

[3] William J. Arendshorst, Elsa Bello-Reuss. Macula-Densa Control of Renin Release. Handbook of Cell Signaling (Second Edition), Vol3. 2010

[4] Robson Augusto S. dos Santos, Cristiane R. Fagundes-Moura, Ana Cristina Simões e Silva. Efeitos cardiovasculares e renais do sistema renina-angiotensina. Rev Bras Hipertens 3: 227-36, 2000.

[5] Abutaleb, Nasrulla; Obaideen, Abdulmunaem. Renal Tamponade Secondary to Subcapsular Hematoma. Saudi Journal of Kidney Diseases and Transplantation 18(3):p 426-429, Jul–Sep 2007.

[6] Taniguchi, T., Yamamoto, K., Tomita, M. et al. Renal tamponade in a patient with hydronephrosis-related Page kidney. CEN Case Rep (2023). https://doi.org/10.1007/s13730-023-00779-6

[7] Husain-Syed F, Gröne H, Assmus B, Bauer P, Gall H, Seeger W, et al. Congestive nephropathy: a neglected entity? Proposal for diagnostic criteria and future perspectives. ESC Heart Fail. (2021) 8:183–203. doi: 10.1002/ehf2.13118

[8] Jonathan S. Chávez-Íñiguez, et. al., How to interpret serum creatinine increases during decongestion. Front. Cardiovasc. Med., 04 January 2023. Sec. General Cardiovascular MedicineVolume 9 - 2022 | https://doi.org/10.3389/fcvm.2022.1098553

[9] Medcurso 2012. Capítulo Nefrologia.  Volume 1.

[10] Oscar F. Pavão dos Santos, Sandra M. Laranja, Mirian A. Boim e Nestor Schor. Fisiopatologia da Injúria Renal Aguda. Curso on-line “Injúria renal aguda” 2015

[11] Eva M. Boorsma, Jozine M. ter Maaten, Adriaan A. Voors, Dirk J. van Veldhuisen, Renal Compression in Heart Failure: The Renal Tamponade Hypothesis, JACC: Heart Failure, Volume 10, Issue 3, 2022,



segunda-feira, 24 de julho de 2023

   DOSE DE ATAQUE DE VASOPRESINA NO CHOQUE SEPTICO (ESTUDO VALOR)


Dr. Alejandro Enrique Barba Rodas. Médico intensivista. Responsável Técnico e Coordenador da Unidade Coronariana da Santa Casa de São Jose dos Campos.




Em 21.07.2023 no Critical Care, foram publicados os resultados de um estudo observacional prospectivo denominado VAsopressin Loading for Refractory séptic shock (VALOR) Study, avaliando os efeitos de uma DOSE DE ATAQUE EM BOLUS DE VASOPRESSINA EM PACIENTES COM CHOQUE SÉPTICO nos quais a vasopressina foi indicada. Avaliou-se as respostas endocrinológicas e hemodinâmicas assim como sua segurança em razão dos efeitos adversos[1].

Como já se conhece, a vasopressina é o vasopressor de escolha de segunda linha como coadjuvante à infusão de noradrenalina no choque séptico refratário.

A vasopressina é um neurotransmissor central que age através da ligação com seus receptores 1 e 2 (V1 e V2)[2]. O receptor V1 é encontrado dentro do músculo liso da vasculatura sistêmica, e a vasopressina atua diretamente aumentando o tônus da musculatura lisa. O receptor V2 está predominantemente localizado no túbulo contorcido distal dos rins aumentando a reabsorção de água. Durante estados fisiológicos normais, vasopressina preferencialmente liga-se ao receptor V2. No entanto, durante o choque séptico, existe uma deficiência relativa de vasopressina e a administração intravenosa atua preferencialmente no receptor V1 para aumentar o tônus do músculo liso e aumentar a pressão arterial. A vasopressina aumenta a pressão arterial mais lentamente do que as catecolaminas. A vasoconstrição e os aumentos da pressão arterial induzidos pela vasopressina só são alcançados quando suas concentrações plasmáticas são superiores a 50pg/ml segundo relata a literatura[3]. Essas diferenças na relação concentração-vasoconstrição se devem aos receptores V1 e α1 conforme já comprovado[4]. Além disso, a meia-vida da vasopressina é de 10 a 35 minutos, enquanto a das catecolaminas é de poucos minutos[5]. A vasopressina quando indicada é administrada em infusão continua.

Entretanto, é importante prever a resposta pressórica ao uso de vasopressina à já que difere entre os pacientes (RESPONDEDORES VERSUS NÃO RESPONDEDORES). Embora melhorias marcantes ocorram em alguns pacientes, outros não respondem à vasopressina, e, portanto, outras nesses casos estratégias de manejo da pressão arterial poderiam ser introduzidas sem perda de tempo. O desenvolvimento de estratégias baseadas na resposta a dose de ataque de vasopressina (bolus) torna-se necessário, incluindo uma infusão contínua de vasopressina para respondedores e outra intervenção, como a infusão de corticoides ou epinefrina, para não respondedores.

Conforme as últimas recomendações do Surviving Sepsis Campaign (SSC) de 2021, vasopressina pode ser administrada em infusão contínua de até 0,03 U/min (1,8 U/h). Embora como recomendação fraca a partir de evidência de qualidade moderada, o SSC orienta iniciar vasopressina quando a dose de norepinefrina está na faixa de 0,25–0,5 μg/kg/min. A vasopressina é um hormônio peptídico endógeno produzido no hipotálamo e armazenado e liberado pela hipófise posterior. Seu mecanismo para atividade vasoconstritora é multifatorial e inclui a ligação de receptores V1 no músculo liso vascular, resultando em aumento da pressão sanguínea arterial. Estudos mostram que a concentração de vasopressina é elevada no choque séptico inicial, mas diminui para a faixa normal na maioria dos pacientes entre 24 e 48 horas à medida que o choque continua. Esse achado foi chamado de “deficiência relativa de vasopressina”, pois, na presença de hipotensão, seria esperado que a vasopressina estivesse elevada. O significado deste achado é desconhecido. Ao contrário da maioria dos vasopressores, a dose de vasopressina não é titulada, mas administrada em uma dose fixa de 0,03 unidades/min para o tratamento do choque séptico. Em ensaios clínicos, a vasopressina foi usada até 0,06 unidades/min. Doses mais altas de vasopressina foram associadas a isquemia cardíaca, digital e esplâncnica. O estudo VANISH comparou diretamente o uso de vasopressina versus norepinefrina ao randomizar pacientes com choque séptico em um desenho fatorial 2 × 2 com o objetivo de avaliar também o papel da hidrocortisona. Não houve diferença significativa entre os grupos vasopressina e norepinefrina na mortalidade de 28 dias. Embora não tenha havido diferença em relação à lesão renal, o uso de vasopressina reduziu o risco de terapia renal substitutiva (TRS). Quanto à terapia de combinação, o estudo principal (VASST) comparando norepinefrina sozinha com norepinefrina mais vasopressina (0,01–0,03 U/min) não mostrou melhora na mortalidade em 28 dias. No entanto, em uma análise de subgrupo, pacientes com choque menos grave recebendo norepinefrina <15μg/min melhoraram a sobrevida com a adição de vasopressina. Ambos VANISH e VASST demonstraram um efeito poupador de catecolaminas da vasopressina; como tal, o uso precoce de vasopressina em combinação com norepinefrina pode ajudar a reduzir a carga adrenérgica associada aos agentes vasoativos tradicionais. Na revisão sistemática de 10 RCTs feita pelo SSC, a vasopressina com norepinefrina reduziu a mortalidade em comparação com a norepinefrina sozinha, mas não reduziu a necessidade de TRS. Não houve diferença nos riscos de isquemia digital ou arritmias. O cut-off de norepinefrina para a adição de vasopressina variou entre os estudos e permanece obscuro. Iniciar vasopressina quando a dose de norepinefrina está na faixa de 0,25–0,5 μg/kg/min parece sensato. Outra metanálise de RCTs sobre choque distributivo mostrou um menor risco de fibrilação atrial com a combinação de vasopressina e norepinefrina em comparação com a norepinefrina sozinha. No entanto, uma outra metanálise de dados individuais de pacientes com choque séptico de 4 RCTs mostrou que a vasopressina sozinha ou em combinação com norepinefrina levou a um maior risco de isquemia digital, mas menor risco de arritmia em comparação com a norepinefrina sozinha[6].

Apesar de não existir uma definição consensual universal, o termo CHOQUE REFRATÁRIO tem sido frequentemente usado durante o manejo do choque circulatório (independentemente de sua etiologia), para alertar sobre uma ausência de resposta à terapia vasopressora inicial. Em 2013, uma revisão no Brasil, definia choque refratário como aquele com necessidade de > 0,5 mcg/kg/min de noradrenalina/adrenalina por > 1h ou >1 mcg/kg/min em qualquer período de tempo. Em 2018, uma revisão apontou que uma definição razoável de choque refratário seria uma resposta inadequada à terapia com altas doses de vasopressores, definida como ≥ 0,5 mcg/kg/min de norepinefrina ou dose equivalente de outro vasopressor. Durante muito tempo, esse status de choque refratário tem sido usado como o momento para a introdução de uma segunda droga vasopressora como a vasopressina. Desde as primeiras diretrizes do Surviving Sepsis Campaign (SSC) em 2004, existe a recomendação da associação de vasopressina para manejo do choque séptico em pacientes refratários a outros vasopressores, sem, no entanto, a própria SSC definir o que seria esse choque séptico refratário. As sucessivas diretrizes (2008, 2012, 2017), mantiveram essa recomendação, sem também incluir a definição de choque refratário. Entretanto, as mais recentes diretrizes do SSC de 2021 trazem, dentro da 38 recomendação (sugestão de associação da vasopressina à norepinefrina), uma observação decorrente da prática dos autores, no sentido de a vasopressina geralmente ser iniciada quando a dose de norepinefrina está na faixa de 0,25–0,5 μg/kg/min[7]. Com doses > 0,5 mcg/kg/min de norepinefrina ou dose equivalente de outro vasopressor existe uma mortalidade associada de até 60% e com doses >1 μg/kg/min de norepinefrina ou equivalente que continuam a se deteriorar clinicamente têm uma mortalidade relatada de 80 a 90%[8] [9]. Outros tem adotado um cut-off mais conservador para definir altas doses altas de vasopressores, usando como corte uma dose de norepinefrina (ou de outro vasopressor equivalente) > 0,2 microgramas/kg/min[10].

DOSE DE ATAQUE DE VASOPRESSINA

Inicialmente, em 2021, Nakamura K. et.al., publicaram um estudo retrospectivo de 21 casos avaliando a dose de ataque de vasopressina em bolus de 1U EV. Demonstraram o potencial da dose de ataque de vasopressina para aumentar rapidamente a pressão arterial e prever respostas subsequentes à sua infusão contínua, identificando respondedores/não respondedores a uma infusão sem muitos eventos adversos[11]. Com base nesses achados, o mesmo grupo realizou o estudo observacional prospectivo denominado estudo VAsopressin Loading for Refractory séptic shock (VALOR).

ESTUDO VALOR

Seleção de pacientes

Foram incluídos pacientes internados na UTI do Centro de Emergência e Cuidados Intensivos do Hitachi General Hospital de Japão, entre abril de 2021 e março de 2023. Esta UTI médica e cirúrgica é reservada para pacientes do departamento de emergência, para pacientes que apresentam deterioração aguda intra-hospitalar e para pacientes graves após cirurgia.

  1. Os critérios de inclusão foram os seguintes:
  2. Idade ≥18 anos,
  3.  Choque séptico (critérios de sepse-3),
  4. Necessidade de administração de vasopressina após a infusão contínua de noradrenalina ≥0,2 μg/kg/min,
  5. Não estar recebendo terapia contínua com esteroides até a administração de vasopressina e,
  6. Ter uma linha arterial.
  7. Os critérios de exclusão do estudo foram designados como fim da vida/cuidados terminais.

Protocolo de administração de vasopressina

Vasopressina foi introduzida em pacientes com choque séptico quando a dose de noradrenalina atingia um valor ≥ 0,2 μg/kg/min. No protocolo do estudo, a vasopressina foi administrada por via intravenosa em bolus de 1U como dose de ataque, seguida de sua administração intravenosa contínua a 1U/h (0.017 U/min).

Antes da dose de ataque de vasopressina, os seguintes procedimentos foram realizados:

  1. Coleta de sangue para testes endocrinológicos e
  2. Sistema de monitorização hemodinâmica minimamente invasiva pelo método PiCCO através do sensor ProAQT (Getinge, Japão) conectado à linha arterial.

Medidas realizadas

  • Indice de Catecolaminas (IC)[12]: calculado como:

 [dopamina + dobutamina + (noradrenalina + adrenalina) μg/kg/min x 100]

  • Mudança do IC (IC): IC após dose de ataque – IC pré dose de ataque de vasopressina
  • Lactato arterial,
  • Balanço hídrico,
  • Parâmetros hemodinâmicos: imediatamente antes dose de ataque de vasopressina e quando a ΔPAM máxima foi alcançada (após 3 a 5 minutos). Pressão arterial média (PAM) aferida da linha arterial, frequência cardíaca (FC), débito cardíaco (CO), volume sistólico (VS), variação do volume sistólico (VVS), pressão venosa central (PVC), resistência vascular sistêmica (RVS) e dPmx (o aumento máximo da pressão ao longo do tempo calculado no ProAQT). O dPmx, é geralmente expresso como dp/dt max, medida ecocardiográfica que representa a contratilidade ventricular esquerda. No entanto, a pré-carga e a pressão aórtica podem afetar o dp/dt max.
  • Testes endocrinológicos, como hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e os níveis de cortisol foram avaliados imediatamente antes da dose de ataque de vasopressina.
  • Outras medidas: Idade, sexo, altura, peso corporal, escores de APACHE II e SOFA na admissão, comorbidades e ocorrência de fibrilação atrial na administração de vasopressina foram analisados ​​como características básicas. O uso de terapias adjuvantes, como ventilação mecânica, ECMO, foram avaliados. Também foram avaliados o momento da administração de vasopressina desde o início da noradrenalina, a dose de noradrenalina e o IC quando a vasopressina foi introduzida, assim os níveis máximos de lactato em 24 horas após a administração de vasopressina.

Eventos adversos registrados

Isquemia digital, isquemia mesentérica e isquemia miocárdica foram prospectiva e sistematicamente registrados.

Desfecho primário

Mudança do IC (IC) 6 h após a introdução da vasopressina, ou seja, com redução das doses de catecolaminas devido à administração de vasopressina.

Desfechos secundários

·         Mudança do IC (IC) 2 e 4 h após a introdução da vasopressina

·         Débito urinário a cada 2 h após a introdução da vasopressina

·         Balanço hídrico 24h após dose de ataque de vasopressina

·         Lactato e alterações do pH por 2h,

·         Tempo total de administração da vasopressina,

·         Uso de esteroides após a administração da vasopressina,

·         Mortalidade intra-hospitalar e

·         Tempo de internação na unidade de terapia intensiva

Classificação de pacientes: respondedores e não respondedores. Foi feita com base na variação máxima da pressão arterial média (PAM max) definida pela diferença entre a PAM antes da administração do bolus de vasopressina e a PAM máxima dentro de 3 a 5 minutos após a administração da dose de ataque de vasopressina.

No estudo anterior retrospectivo, adotou-se como o ponto de corte para distinguir respondedores de não respondedores um aumento da pressão arterial média (PAM) de 18 mmHg, 1 min após a dose de ataque de vasopressina. Neste valor não havia nenhum caso com ΔIC < 0 em 2, 4 ou 6 h. Assim, respondedores foram definidos como aqueles com alteração da PAM ≥18 mmHg 1 min após a dose de ataque de vasopressina, e não respondedores como aqueles com PAM <18 mmHg após a dose de ataque, que correspondeu ao tercil inferior.

Neste estudo prospectivo, a alteração máxima da PAM foi prospectiva e cuidadosamente observada pelos médicos dentro de 3 a 5 minutos após a dose de ataque e registrada como alteração máxima da PAM (ΔPAM max). Assim, esperava-se uma distribuição de ΔPAM e ponto de corte diferentes para este estudo prospectivo. Portanto, para seguir a linha do estudo anterior em que o ponto de corte de 18 mmHg correspondeu ao tercil inferior, selecionamos o tercil inferior de ΔPAM max como ponto de corte neste estudo.

RESULTADOS.

92 pacientes incluídos receberam um bolus de 1 U de vasopressina seguido por uma infusão contínua de 1 U/h. O tercil inferior de ΔPAMmax após dose de ataque de vasopressina foi de 22mmHg. 62 pacientes com ΔPAM > 22 mmHg foram classificados como respondedores e 30 com ΔPAM ≤ 22 mmHg como não respondedores.

As características de idade, sexo, altura, peso, escores de gravidade, terapia adjuvante e fibrilação atrial não diferiram significativamente entre respondedores e não respondedores.

O tempo para iniciar a administração de vasopressina desde o início da noradrenalina foi mais longo nos respondedores [5 horas (1,4, 15,7) vs. 1,75 horas (0,5, 4,9), p = 0,018], e a concentração de lactato no sangue em 24 h foi menor nos respondedores [2,6 mmol/l (1,6, 4,6) vs. 4,7 mmol/l (2,9, 8,1), p = 0,008], enquanto a dose de noradrenalina e o ΔIC no momento do início da vasopressina não diferiram significativamente entre respondedores e não respondedores.

Nos testes endocrinológicos, as concentrações sanguíneas de vasopressina e cortisol não diferiram significativamente entre os grupos; no entanto, as concentrações de ACTH foram significativamente menores nos respondedores [22,8 pg/ml (9,7, 45,4) vs. 36,4 pg/ml (22,3, 92,5), p = 0,018].

Como desfecho primário, o ΔIC 6 h foi -10 nos respondedores versus 0 nos não respondedores, significativamente menor nos primeiros (p < 0,0001).

ΔPAMmax > 22 mmHg, que definiu os respondedores no presente estudo, teve sensibilidade de 92% e especificidade de 77% para ΔIC 6h < 0. Além disso, ΔIC 2 h e 4 h foram significativamente menores em respondedores. Entretanto, este conjunto de dados não teve poder suficiente para detectar uma diferença estatisticamente significativa na mortalidade intra-hospitalar entre respondedores e não respondedores (37,7% vs. 57,1%, p = 0,087).

O tempo de permanência hospitalar e a duração da ventilação mecânica/ECMO também não foram significativamente diferentes.

A diurese 2, 4 e 6 horas após a infusão de vasopressina foi significativamente maior nos respondedores, e a administração de fluido e o balanço hídrico também foram significativamente menores nos respondedores.

As alterações do lactato sanguíneo após 2 h foram significativamente menores com um valor negativo como mediana nos respondedores.

A duração final da administração de vasopressina não foi significativamente diferente entre os grupos, enquanto a taxa de uso de corticoides após a introdução de vasopressina foi maior nos não respondedores.

Como efeitos adversos, eventos de isquemia foram observados em 5 casos (5,4%). A isquemia digital ocorreu em 2 (7,1%) não respondedores e em 0 (0%) respondedores, significativamente maior nos primeiros (p = 0,030). Não foram observadas diferenças significativas na isquemia mesentérica ou isquemia cardíaca.

Antes da dose de ataque de vasopressina, a maioria dos parâmetros hemodinâmicos aferidos, incluindo pressão arterial, débito cardíaco e pressão venosa central, não diferiram significativamente entre respondedores e não respondedores. Apenas VVS foi maior nos respondedores:17% (13, 22,3) versus 12% (7,8, 19,3), p = 0,015. Após dose de ataque de vasopressina, o volume sistólico e dPmx foram significativamente maiores nos respondedores: volume sistólico 52 (42, 68) versus 42,5 (32,3, 54,5) ml, p = 0,025 e dPmx 1264 (1035, 1684) versus 956 (606,5, 1377), p = 0,024, respectivamente. No entanto, a AUROC da VVS antes da dose de ataque e dPmx após a dose de ataque para ΔIC 6 h < 0 foram baixos (0,623 e 0,706, respectivamente). Da mesma forma, a AUROC de ACTH para ΔIC 6 h < 0 foi baixo (0,651). Embora o valor absoluto do débito cardíaco (CO) e da RVS não tenham sido significativamente diferentes, as mudanças antes/depois da dose de ataque de vasopressina foram significativamente diferentes: mudança de CO: 0 (- 0,4, 0.5) versus -0.4 (-0,9, 0) l/min, p= 0,0034 e RVS: 569 (417, 858) versus 344 (159, 541) dynas/s/cm⁵, p=0.0013 respectivamente.  A análise de sensibilidade com o corte de 18 mmHg de ΔPAMmax para identificação de respondedor/não respondedor teve resultados semelhantes.

DISCUSSÃO

No presente estudo, a frequência de eventos adversos foi adequadamente baixa e semelhante àquela relatada em ensaios clínicos anteriores com vasopressina sem dose de ataque. Os presentes resultados indicam que uma dose de ataque em bolus de vasopressina endovenosa jde 1 U é segura.

Enquanto a deficiência de vasopressina não se correlacionou com as respostas à vasopressina, o tempo para iniciar vasopressina desde o início da noradrenalina foi mais longo nos respondedores no presente estudo. Esses achados indicam que os respondedores poderiam ter incluído pacientes menos graves (maior tempo para atingir o ponto de corte de noradrenalina), ou que pode existir uma deficiência de vasopressina que não poderia ser explicada pela concentração absoluta de vasopressina, como no caso de hipovolemia. Enquanto isso, as concentrações de ACTH foram significativamente maiores em não respondedores. A vasopressina é um dos reguladores de feedback da liberação de ACTH via receptor 3 hipofisário de vasopressina. Embora a concentração de vasopressina não tenha sido diferente entre os grupos, a excreção de vasopressina poderia ter continuado por mais tempo nos não respondedores. Nesses pacientes, com suspeita de insuficiência adrenal relativa, a suplementação com corticoides poderia ser um tratamento coadjuvante. Uma das razões pelas quais alguns ensaios clínicos randomizados mostraram que a eficácia da vasopressina foi maximizada com o uso de corticoides pode ser porque eles atuaram como uma terapia de resgate para os não respondedores à vasopressina.

VVS foi maior nos respondedores. Como a vasopressina induz a contração dos vasos venosos, pode ter aumentado o retorno venoso pela contração do volume estressado. dP/dt max é um marcador de contratilidade cardíaca, quando a pré-carga adequada e a pressão aórtica real foram mantidas. A vasopressina teoricamente não afeta a contratilidade cardíaca, mas conseguiria um ajuste hemodinâmico favorável com vasoconstrição, o que resultaria em aumento de dP/dt máx. Se originalmente a contratilidade cardíaca fosse melhor, a vasopressina seria mais efetiva, correspondendo aos nossos resultados.

Essas diferenças endocrinológicas e hemodinâmicas significativas seriam razoáveis ​​para as respostas à vasopressina, mas não previam adequadamente as respostas. As respostas à vasopressina podem ser afetadas por muitos fatores além das alterações hemodinâmicas e endocrinológicas; portanto, a carga de vasopressina pode ser importante para prever essas respostas.

Além disso, a carga de vasopressina aumentou a diurese em um curto período nos respondedores. Como a vasopressina aumentou a resistência vascular mais nas arteríolas glomerulares eferentes do que nas arteríolas glomerulares aferentes, foi demonstrado que a vasopressina poderia ter aumentado o débito urinário na fase inicial em comparação com a noradrenalina no choque séptico. Como o débito urinário foi significativamente diferente entre respondedores e não respondedores, a carga de vasopressina pode ter a previsibilidade dos impactos renais no choque séptico.

LIMITAÇÕES. Existem várias limitações que precisam ser abordadas.

Este foi um estudo observacional. Portanto, ensaios randomizados são necessários para confirmar os resultados destes estudos.

O cálculo do IC era realizado por um médico da emergência e da UTI, que nem sempre estava disponível para fazer ajustes rápidos no IC em pacientes de UTI.

Além disso, como os pacientes japoneses de UTI geralmente são menores e mais velhos do que os dos países ocidentais, uma dose de 0,03 U/min (1,8 U/h) poderia ser muito alta para aqueles; por isso adotou-se uma velocidade fixa de infusão menor de 1U/h (0.017 U/min). Assim, se faz necessário reproduzir o estudo em populações nos quais costuma-se usar uma dose de 0,03 U/min (1,8 U/h) como preconizado pelo Surviving Sepsis Campaign.

CONSIDERAÇÕES

A dose de ataque em bolus de vasopressina poderia ser introduzida quando indicado o uso dessa segunda droga no manejo do choque séptico para alcançar com segurança um aumento rápido da pressão arterial. A dose de ataque de vasopressina pode ser usada para prever respostas à sua infusão contínua e selecionar estratégias apropriadas para aumentar a pressão arterial.

No nosso meio, uma solução padrão de vasopressina se obtém diluindo 1 ampola (1ml = 20U) em 99ml de SF 0.9%, o que equivale a uma solução de 0.2U/ml. A dose de ataque em bolus seria feita com 5ml da solução reparada (1U) e o restante da solução seria infundida a uma velocidade de 0,017 (pelo estudo) a 0,03 U/min (conforme preconizado pelo Surviving Sepsis Campaign. Entretanto, um aumento da PAM > 18 a 22 mmHg após 3 a 5 minutos da dose de ataque, poderia alertar sobre a necessidade de suspender a vasopressina e mudar para uma outra estratégia como associar corticoide e/ou uma outra catecolamina (adrenalina, dobutamina).

Embora não mencionado no estudo, o uso da vasopressina em bolus não é novidade. A literatura descreve seu uso dentro da estratégia denominada “push-dose vasopressor ou push-dose pressors” (vasopressores em dose-push) ou “bolus-dose vasopressor ou bolus-dose pressors” (vasopressores em bolus), isto é, drogaco efeito vasopressor administradas em bolus para controlar a hipotensão de forma emergencial. É uma prática que tem utilidade na anestesia ou em unidades de urgência/emergência e de terapia intensiva, pois pode ser útil para controlar a hipotensão transitória associada a agentes de indução administrados durante a intubação. Embora qualquer número de agentes possa ser usado como PDP, os mais comuns são a fenilefrina e a epinefrina (adrenalina). A fenilefrina é eficaz na correção da hipotensão. O aumento da pressão arterial é dependente da dose. Doses de 100mcg ou menos aumentam a pressão arterial média entre 4 mmHg e 4,8 mmHg (147 e 188 pacientes, respectivamente). Doses entre 100-199 mcg aumentam a PAM em 5,6 mmHg. Doses acima de 200 mcg aumentam a PAM em 12mmHg[13] [14]. A epinefrina push dose também melhora a hipotensão, mas foi menos estudada. Uma pequena série de pacientes pós-parada relata o uso de bolus de 10 mcg usados ​​para restaurar a pressão arterial sistólica de 60 mmHg para sistólica de 100 mmHg em três pacientes. Uma revisão retrospectiva da epinefrina em dose push durante o transporte para cuidados intensivos demonstrou PAM de 13 mmHg com um protocolo de dosagem de 10-20 mcg[15] [16]. Entretanto ainda faltam evidências consistentes para recomendar fortemente sua prática rotineira, especialmente com o uso de adrenalina que pode provocar taquicardia, arritmias e hipertensão rebote; e bradicardia e hipertensão de rebote com fenilefrina[17] [18].

Até as diretrizes de 2015 do Advanced Cardiac Life Support (ACLS) da American Heart Association, vasopressina era parte da estratégia de reanimação cardiopulmonar podendo substituir a adrenalina[19]. Foi removida após ensaios controlados e randomizados não mostrarem superioridade à epinefrina[20]. No cenário da anestesia, a literatura recomenda o uso de 0.5 a 1U endovenosa de vasopressina para o manejo inicial da síndrome vasoplegica[21].

Craig D. Nowadly e col., em 2020, publicaram um reporte de caso em que usaram vasopressina em push-dose de 1U endovenosa para tratar um quadro de choque pós intubação. Após indução com 20 mg de etomidato intravenoso (IV) e 100 mg de rocurônio IV para intubação em sequência rápida, observou-se que a pressão arterial diminuiu para 55/36 mmHg e o pulso aumentou para 136 batimentos/min. Após ressuscitação volêmica com 1000 mL de solução de ringer com lactato, a paciente permaneceu hipotensa com pressão arterial de 80/51 mmHg e pulso de 129 batimentos/min. Foi administrado 1U IV de vasopressina em bolus. Para tanto, a ampola de 1ml de vasopressina (20U) foi diluída em 19ml de SF 0.9% (seringa de 20ml com 1U/ml) sendo injetado 1ml da solução.  Dentro de 1 min, sua hemodinâmica melhorou para uma pressão arterial de 141/102 mm Hg e pulso de 120 batimentos/min. Posteriormente foi mantida a compensação hemodinâmica com noradrenalina EV/BIC[22].


Push-dose pressors (https://www.facebook.com/FOAMfrat/posts/how-push-dose-pressors-compare-to-one-another-/3005208066417998/)

 



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